Habitação

Sonho de ter uma casa é espera sem fim no Pilar

Há um ano, moradores esperam construção de 160 apartamentos, dentro do projeto de requalificação prometido à comunidade

Ciara Carvalho
Ciara Carvalho
Publicado em 12/05/2019 às 7:04
Especial
Foto: Leo Motta/JC Imagem
FOTO: Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Esperar é verbo impositivo para os moradores do Pilar. É tempo que não finda. Vivem de espera desde 2008, quando a ainda Favela do Rato vislumbrou o sonho de virar uma comunidade saneada, com escola, praça, posto de saúde, sem perder a vizinhança nobre, a 700 metros da sede da prefeitura e encravada no turístico Bairro do Recife. Onze anos se passaram. De tanto esperar, perderam a capacidade de acreditar. A promessa: construir 588 apartamentos. A realidade: só 192 foram entregues. Onze anos e intermináveis atrasos esvaziaram, para aquelas pessoas, o significado da palavra esperança. No embate mais recente, os moradores se veem diante de um novo impasse. Há um ano esperam o início das obras de mais uma etapa do conjunto, quando seriam erguidas 160 unidades habitacionais. Em uma das quadras, o mato tomou o lugar dos apartamentos. Na outra, os escombros das casas de alvenaria, antes lares modestos, emolduram a desilusão de quem não tem onde morar.

O imbróglio está longe de uma solução. Há um ano, quando os barracos de madeira que ocupavam a quadra 45 foram derrubados, a promessa era de início imediato das obras. As famílias que ali moravam aceitaram ir para o auxílio-moradia, com a crença de que poderiam voltar de vez, para a nova casa, no prazo de 18 meses. Mas a construtora que venceu a licitação condicionou o início dos trabalhos à desocupação da outra quadra, a de número 60, onde também seriam construídos apartamentos. Acontece que nesta quadra há vários comerciantes que, diante da demora para o início das obras na área vizinha, disseram temer não ter como manter o sustento de suas famílias. Para eles, não era só a moradia que estava em jogo.

Após muita negociação, uma parte dos comerciantes aceitou abrir mão do espaço que hoje serve de residência e ganha-pão, em troca da garantia de que a prefeitura disponibilizaria um contêiner para que eles pudessem trabalhar até a obra ficar pronta. Outro grupo, no entanto, preferiu receber indenização pelo ponto comercial, mas o valor oferecido pela prefeitura foi considerado muito baixo e já virou alvo de disputa judicial. Passado um ano, a empresa que ganhou a licitação desistiu da construção dos apartamentos nas duas quadras e solicitou à Caixa Econômica Federal a suspensão dos contratos.

Enquanto o mato cresce e as casas permanecem destruídas, os moradores vivem de incerteza. Sem saber como e, sobretudo, quando a situação será resolvida e as obras, finalmente, iniciadas. “Disseram que a demora era só a gente sair que iam começar a construir. Pois eu já estou há mais de ano morando num barraco menor do que o que eu tinha, esperando esses prédios invisíveis. E nada. Nem chegaram a começar. Aqui é a única esperança que me resta de ter minha casa. Ou é aqui ou é a rua”, diz Safira Gonzaga de Lima, 44 anos, que está morando num barraco de tábua, na própria Comunidade do Pilar, pago com os R$ 200 do auxílio-moradia.

Ana Cláudia Miguel, moradora da comunidade, diz que o último prazo dado pela Prefeitura do Recife para o início das obras foi março deste ano. E novamente nada aconteceu. “Além dessas duas quadras, existem outras três – a 46, 55 e a 25 – que já foram licitadas, e também não saíram do papel. A gente fica desacreditado. Será que essa requalificação, prometida há mais de uma década, realmente vai acontecer?”

Quando olha para os escombros da casa que reformou, durante anos, cômodo a cômodo, Catarina Carla de Araújo, 36, não se conforma. “Eu cheguei aqui, ainda era um barraco dentro da lama. Coloquei cerâmica, arrumei banheiro, fui construindo minha vida. Aí vi meu sonho desmoronar, virar ruína. Mas pensei: tem um sonho melhor me esperando, um apartamento, com sala, quarto, cozinha. Mas essa esperança também foi destruída. Só restou tristeza e decepção.” No fim deste mês, dia 28, os moradores farão um protesto em frente à Prefeitura do Recife. Sairão a pé da comunidade para cobrar a construção dos apartamentos. Dizem que, depois de tudo, fazer barulho é o que resta.

Infiltrações tiram sono de morador

A via-crúcis para conseguir o sonhado teto não é o único desafio na vida dos moradores do Pilar. Entre os que já receberam o imóvel, a aflição é pelas condições estruturais dos apartamentos. Vários apresentam infiltração e há rachaduras na estrutura externa dos prédios. Os moradores afirmam que os primeiros apartamentos, entregues em 2012, também possuem fissuras internas.

“Os apartamentos têm infiltração do 3º andar até o térreo. Quando os vizinhos usam a máquina de lavar, a água suja, com sabão, sai na encanação da minha cozinha. Fica tudo alagado”, diz a dona de casa Ângela Maria Leite, 64 anos, que mora em um dos apartamentos entregues em 2016. A moradora Ana Cláudia Miguel afirma que, diante das inúmeras reclamações, a empresa responsável pelo residencial fez obras de reparo contra as infiltrações, mas as rachaduras, nos prédios mais antigos, não foram resolvidas.

Sobre o atraso no início da construção dos apartamentos nas quadras 45 e 60, a diretora de Habitação da Empresa de Urbanização do Recife (URB), Norah Neves, argumenta que a demora não se deve à Prefeitura do Recife (PCR). “Todos os impasses que surgiram a prefeitura foi resolvendo. A decisão dos comerciantes de não desocupar a área realmente dificultou o processo. Agora depende mais da comunidade do que da gente”, disse, afirmando que a PCR já entrou na Justiça com pedido de reintegração de posse e de indenização de benfeitoria, para tentar resolver o impasse.

Ela explicou que a contratação da empresa para a construção dos 160 apartamentos foi feita diretamente pela Caixa Econômica Federal, através do Programa Minha Casa Minha Vida. O investimento previsto é de R$ 13 milhões. “O município só doou o terreno. Fizemos várias reuniões para tentar convencer os moradores da quadra 60 a deixarem o terreno. Infelizmente a empresa contratada colocou a retirada total dos moradores das duas quadras como condição para o início das obras. Como isso não aconteceu, a construção não foi iniciada.”

Em relação às obras das quadras 46, 55 e 25, onde serão erguidas 256 unidades habitacionais e uma praça, Norah Neves diz que a empresa já está contratada, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Serão gastos nesta etapa cerca de R$ 19 milhões.

 

Foto: Leo Motta/JC Imagem
No terreno vazio, onde o mato só faz faz crescer, deveria estar sendo construído habitacionais - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Prédios entregues em 2016 apresentam rachaduras na parte externa. Há problemas também de infiltração - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Comunidade do Pilar, ainda cheia de barracos de madeira, aguarda a requalificação desde 2008. - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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No terreno vazio, onde o mato só faz faz crescer, deveria estar sendo construído habitacionais - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Moradores denunciam infiltração nos apartamentos entregues em 2016. - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Safira teve que deixar o barraco onde morava para a construção do habitacional. Mas obra não começou - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Ana Cláudia Miguel mora no Pilar e luta para que a comunidade receba os habitacionais prometido - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Moradores denunciam infiltração nos apartamentos entregues em 2016 - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Promessa era construir 588 apartamentos. Mas só 192 foram entregues. Barracos de madeira persistem - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Moradores denunciam infiltração nos apartamentos entregues em 2016 - Foto: Leo Motta/JC Imagem

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