festa do morro

Como o Bagnuolo se transformou no Morro da Conceição, local de fé e devoção no Recife

No princípio, era só mais um morro, conhecido como Bagnuolo. Mas aí, a Igreja Católica plantou no topo da colina uma imagem gigante de Nossa Senhora da Conceição e tudo mudou

Cleide Alves
Cleide Alves
Publicado em 07/12/2019 às 17:30
Foto: Leo Motta/JC Imagem
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No princípio, ele era apenas mais um morro na geografia do Recife, desabitado e coberto por mata. Era o Morro do Bagnuolo (nome que vem lá do tempo dos holandeses), da Bela Vista ou do Arraial. Mas aí, a Igreja Católica plantou no topo da colina uma imagem gigante de Nossa Senhora da Conceição. O ano era 1904, e o lugar nunca mais seria o mesmo.

A ideia da igreja era criar um espaço de adoração a Nossa Senhora na parte mais alta do morro. Acabou dando origem a uma ocupação que ficou conhecida como símbolo de luta, coragem e resistência. Com a chegada da imagem da santa, para celebrar os 50 anos do dogma da Imaculada Conceição, e a construção da capela dois anos depois, a encosta localizada na Zona Norte ganhou seu primeiro morador, o zelador contratado para tomar conta da Virgem da Conceição.

Pouco a pouco, ao zelador e à sua família juntaram-se outros habitantes, que foram derrubando áreas de mata para construir casas de taipa, uma bem distante da outra. Passados 115 anos, o Morro da Conceição, nome dado à colina depois da chegada da santa, é o endereço de 10.182 pessoas, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, de 2010.
No bairro de 38 hectares (representa 0,17% do território do Recife, de 218 quilômetros quadrados), havia 2.955 domicílios nove anos atrás. Moradias de taipa, com paredes de barro e cobertas de capim, foram substituídos por imóveis de alvenaria. “Hoje, o Morro parece uma corda de caranguejo, é uma casa em cima da outra”, comenta Severina Paiva de Santana, a dona Sevi. A densidade em 2010 era de 268 habitantes por hectare.

O Morro é um bairro pequeno, abriga 0,66% da população da capital e está entre as áreas mais densas da cidade, observa o arquiteto e urbanista Geraldo Marinho, que trabalha com consultoria. A densidade demográfica do Morro, diz ele, fica acima da média do Recife, de 70 habitantes por hectare. “Isso garante maior vitalidade e diversidade de atividades instaladas e pessoas circulando no bairro”, avalia o urbanista.

“Antigamente, todas as casinhas tinham quintal com pés de coco, manga, goiaba, macaxeira e batata-doce”, acrescenta Sevi, 84 anos. Ela nasceu em Itambé, Zona da Mata pernambucana, e vive na comunidade há 67 anos. Mas, na época em que as famílias tinham quintal para plantar e colher, o Morro não era bairro (pertencia a Casa Amarela) e o lugar não tinha infraestrutura.
Os primeiros ocupantes chapinhavam a lama com os pés, numa comunidade sem calçamento, água encanada, energia elétrica, escola e transporte coletivo. “A imagem da santa trouxe a moradia, pessoas humildes que não tinham onde morar vieram para cá para viver sob o manto da mãe, com a bênção e a proteção de Nossa Senhora, mas ainda sem acesso aos serviços”, diz Sevi.
Foi em 1969, quando o então arcebispo de Olinda e Recife dom Helder Camara levou para a comunidade o movimento de evangelização Encontro de Irmãos, que os moradores começaram a se organizar para correr atrás dos seus direitos e aprender seus deveres, relata.

“O Encontro de Irmãos era pobre evangelizando pobre e pobre acreditando no pobre”, explica Sevi, que resgatou as origens do bairro no livro Aos Pés da Santa – A História de um Povo, lançado em 2012.

Com o apoio da Igreja Católica, a população passou a reivindicar água potável, escola, iluminação, calçamento e transporte público. “Se Boa Viagem (bairro da Zona Sul) tinha tudo isso, o Morro também poderia ter. O povo humilde foi chegando, se descobrindo e se unindo. Trabalhamos juntos e conseguimos tudo com uma luta sem violência, porque dom Helder nunca pregou a violência. O Morro acabou se transformando numa cidade dentro da cidade”, define.

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O dia 8 de dezembro é dedicado a Nossa Senhora da Conceição - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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O Morro da Conceição é símbolo de luta e resistência - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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A Praça do Morro da Conceição é um espaço público usado por todos - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"As pessoas podem, sim, celebrar da maneira que achem mais bonito", disse o religioso Maílson Régis - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"É um convívio muito respeitoso. A prática do Evangelho é o amor", disse Anderson de Santana - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Nasci e cresci no Morro. Somos todos filhos do mesmo Deus", lembra Pai Bonfim - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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O Morro da Conceição é um lugar onde se come bem - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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No quesito culinária, Dona Geralda é a sensação do Morro - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Nas segundas-feiras, a minha sopa faz sucesso", garantiu Jacilene da Conceição - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Lula Lanches faz sucesso no Morro com seu hamburguer gourmet - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Ana Paula Guedes é uma das idealizadoras do grupo de samba reggae Obirin - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"O Morro é minha base. Foi e continua sendo minha escola", disse o Mestre Pinha Brasil - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Suelane e Anderson são totalmente ligados às manifestações no Morro da Conceição - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Nunca fomos um lugar isolado no Recife", afirma dona Severina Paiva de Santana - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Aprendi a cozinhar com uma senhora que trabalhava para os patrões", disse Geraldina dos Santos - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Meu sonho como empresária é montar uma doceria na Zona Norte", disse Viviane Assis - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Nascido no Morro, Valmir Ferreira gosta de cozinhar para muita gente - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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Surgimento de novos negócios, como o de Thiago Barbachan, dinamiza a economia do Morro - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Hoje tenho seis funcionários na minha empresa, todos moradores do Morro", disse Paulo Manoel - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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"Minha casa vira uma festa durante a Festa do Morro", disse Célia Mamede da Silva - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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A calmaria toma conta entre as ruas estreitas - Foto: Leo Motta/JC Imagem
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O Morro da Conceição é de todos, para todos - Foto: Leo Motta/JC Imagem

Processo de urbanização deve-se aos moradores

A união dos moradores, na opinião de Sevi, é o grande diferencial no processo de urbanização do Morro. “Juntos ficamos mais fortes para cobrar das autoridades nossos direitos, por isso conseguimos trazer a infraestrutura de que precisávamos, esse é um dos momentos marcantes da comunidade”, sustenta a moradora.

Bagnuolo, para quem ficou curioso sobre a antiga denominação, era o nome de um oficial que ajudou no combate aos holandeses que ocuparam o Nordeste brasileiro de 1630 a 1654. Giovanni Vicenzo San Felice, o Conde de Bagnuolo, pretendia fazer um forte no topo do morro no século 17, para a defesa luso-brasileira, mas não concretizou a ideia, diz a arquiteta da Secretaria de Planejamento do Recife Adriana Figueira.

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