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Entenda impasse entre rodoviários e patrões que culmina em paralisações no Grande Recife

Nesta manhã, os rodoviários realizaram a sexta manifestação desde o fim do mês de outubro

Adige Silva
Adige Silva
Publicado em 05/12/2019 às 14:41
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Foto: Arnaldo Carvalho/JC Imagem
Nesta manhã, os rodoviários realizaram a sexta manifestação desde o fim do mês de outubro - FOTO: Foto: Arnaldo Carvalho/JC Imagem
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Apesar de o Grande Recife Consórcio de Transporte e o Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros no Estado de Pernambuco (Urbana-PE) alegarem que a dupla função dos condutores foi acordada entre empresários e rodoviários em convenção coletiva no ano passado, o presidente eleito do Sindicato dos Rodoviários de Pernambuco, Aldo Lima, garante que os protestos não vão parar. No sexto ato realizado por motoristas e cobradores de ônibus do Grande Recife, diversas ruas e avenidas do Centro do Recife foram bloqueadas na manhã desta quinta-feira (5) e os passageiros tiveram que seguir a viagem a pé ou aguardar dentro dos veículos durante quase quatro horas.

Os rodoviários estacionaram os veículos para protestar contra, de acordo com a categoria, a demissão dos cobradores e o acúmulo de função por parte dos motoristas. "Nós somos contra a dupla função, a gente acha isto um grande retrocesso. Num serviço que já é deficiente, é um absurdo que o motorista ainda exerça outra atribuição além da exclusiva de dirigir. Vai ter que passar troco, descer do ônibus para operar os elevadores dos cadeirantes. Isto coloca em risco a vida dos usuários e do próprio trabalhador", diz Aldo Lima, que foi eleito e assume a presidência do Sindicato no dia 23 de dezembro. Esta foi a sexta manifestação organizada desde o fim do mês de outubro. As outras ocorreram em Olinda, no TI Xambá, no bairro do Jordão e do Ibura, na Zona Sul do Recife, na Torre, na Zona Oeste e no Centro.

Sobre os protestos, o Grande Recife alega que tenta minimizar os impactos para os usuários e que 78% dos passageiros utilizam o Vale Eletrônico Metropolitano, o VEM. "Por isto, o Consórcio vem autorizando a substituição dos cobradores por esta nova configuração operacional de cobrança de tarifa nas linhas com baixo número de pagantes em espécie por viagem. Atualmente, são 154 linhas que operam sem cobrador", diz a nota enviada. O órgão reforçou, ainda, que o acúmulo de função foi "uma cláusula da convenção coletiva dos rodoviários" e que a operadora, "respeitando as convenções coletivas de trabalho, remaneja e capacita os profissionais para que executem outras atividades na própria empresa". A cláusula foi assinada em convenção coletiva organizada pela atual gestão do sindicato, presidido por Benilson Custódio.

Já a Urbana-PE disse, também por meio de uma nota, que "a escolha do grupo, sequer empossado, continua sendo de causar tumulto ao invés do diálogo ou contribuição com soluções. O que reforça que se trata de uma ação com motivações políticas e pessoais e que, novamente, ocorre sob a falsa alegação de demissões de cobradores", destaca.

Sobre o assunto, Aldo Lima reforçou que os cobradores estão sendo demitidos, mas falou não ter números porque as empresas "burlam" a divulgação dos dados. Ele ainda afirmou que está aberto ao diálogo, mas que os protestos vão continuar acontecendo até que os profissionais parem de ser demitidos. Aldo ainda garante que ocorrerão outras mobilizações mesmo depois que ele assumir a presidência do Sindicato. A Urbana-PE alega que as demissões não existem, e que os profissionais retirados da função de cobrador estão recebendo treinamento para assumir outros postos, como de motorista, fiscal e também vendendo cartões do VEM.

O que pensa a população

Durante o ato, que teve início por volta das 8h, foram bloqueadas a Avenida Conde da Boa Vista, a Ponte Duarte Coelho, a Avenida Guararapes, a Rua do Sol e a Ponte Princesa Isabel. A manifestação dividiu a opinião das pessoas que foram afetadas. Fátima Cunha, de 59 anos, que mora e é síndica de um prédio que fica na Rua do Príncipe, não conseguiu sair de casa até que o protesto tivesse fim, às 12h, porque os ônibus estavam estacionados em sua porta. "A gente não consegue nem entrar, nem sair. É um prédio que tem gente idosa, criança. Cheguei a ligar para a CTTU. Eu acho um absurdo porque a gente paga imposto, é cidadão e não tem o menor respeito. Abandonaram os veículos aqui, abertos", relata.

Para a estudante Mírian Ferreira, de 19 anos, a mobilização tem pontos positivos e negativos. "Eu desci longe porque estava indo para a Conde da Boa Vista. Tive que vir andando. Eles estão lutando pelos direitos, precisam trabalhar. A gente que é trabalhador entende o lado deles. Mas fica difícil porque precisamos chegar no trabalho e, sem eles, não conseguimos", comenta. O músico Raniery da Silva, de 47 anos, seguia em um ônibus de Abreu e Lima para o bairro da Encruzilhada, quando foi surpreendido pelo protesto. "Eles estão no direito deles. A dupla função é ruim. Sou contra o desemprego, contra a demissão dos cobradores, mas mesmo chegando atrasado eu apoio o protesto", declara.

O estudante Lucas Vinícius, de 17 anos, também concorda com a manifestação. "Estava indo para casa para ir para a escola fazer prova quando o ônibus parou. Eu apoio eles porque não é certo demitir. O motorista cobrando e dirigindo é perigoso", completou.

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