Transporte

Entenda impasse entre rodoviários e patrões que culmina em série de protestos no Grande Recife

Na manhã desta quarta-feira (4), houve uma assembleia em frente à empresa Caxangá, em Olinda

Mayra Cavalcanti
Mayra Cavalcanti
Publicado em 04/03/2020 às 11:26
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WELINGTON LIMA/JC IMAGEM
Motoristas e cobradores em frente a garagem da empresa Caxangá, em Olinda - FOTO: WELINGTON LIMA/JC IMAGEM
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Para entender as polêmicas envolvendo a retirada dos cobradores das linhas de ônibus do Grande Recife, é preciso retornar ao ano de 2016. Em julho daquele ano, a primeira linha, a 901 - TI Abreu e Lima/TI Macaxeira, deixava de trafegar com os profissionais, em uma tentativa do Governo de Pernambuco e do Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros no Estado de Pernambuco (Urbana-PE) de diminuírem a circulação de dinheiro dentro dos veículos, estimulando o uso do Vale Eletrônico Metropolitano (VEM) e, consequentemente, reduzindo os assaltos.

Em março de 2017, o anúncio de mais oito linhas aderindo à, então, novidade, fez com que o governador Paulo Câmara determinasse que a retirada dos cobradores fosse suspensa. O pedido ocorreu em abril de 2017, quando 32 linhas já trafegavam apenas com os motoristas. A retirada dos profissionais, à época, chamou a atenção do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). Mesmo com a suspensão, duas linhas deixaram de ter cobradores em dezembro do mesmo ano.

O histórico de protestos realizados pelo Sindicato dos Rodoviários de Pernambuco contra a demissão dos profissionais, e mais recentemente contra o acúmulo de função por parte dos motoristas, o que a categoria chama de dupla função, não é pequeno. Mesmo com a determinação do governador, em 2017, foram quatro manifestações relacionadas ao tema, entre março e abril.

Com a retomada da saída dos cobradores das linhas, que ocorreu em maio de 2019, e a intensificação da retirada, em novembro do ano passado, vieram novas manifestações relacionadas ao tema. Além dos protestos, ocorreu também a eleição de um novo representante para o Sindicato dos Rodoviários, que até então era comandado pelo presidente Benilson Custódio. Foi durante a gestão dele, inclusive, que foi acordando com os empresários de ônibus, em convenção coletiva dos motoristas e cobradores, e em seguida validada pelo governo de Pernambuco, a dupla função. Nas assembleias realizadas em julho de 2019, inclusive, houve a proposta de aumento em 35% na gratificação dos motoristas que tivessem acumulando função, que ganhavam R$ 100 até então.

Com as eleições, desde o dia 23 de dezembro de 2019, o novo líder da categoria é Aldo Lima, que já comandava algumas das manifestações realizadas pelos rodoviários, mas como oposição ao Sindicato. De outubro de 2019 a dezembro, foram seis mobilizações, em diversos pontos do Recife. Em 2020, já foram dois atos, sendo um em fevereiro e outro realizado na manhã desta quarta-feira (4), em frente à empresa Caxangá, no bairro de Peixinhos, em Olinda.

Diante de todo o histórico, mesmo após suspensão e retorno da retirada dos cobradores, protestos da categoria e a convenção coletiva, o que impera é o impasse. De um lado, os rodoviários alegam que vão continuar mobilizados e que são contrários à dupla função e à demissão dos cobradores. De outro, a Urbana-PE e do Grande Recife Consórcio dizem que o acúmulo foi acordado com a categoria, que aceitou o acordo durante a convenção coletiva.

Suspensão do acordo coletivo

O presidente do Sindicato dos Rodoviários de Pernambuco, Aldo Lima, comenta que os empresários "querem forçar a dupla função". De acordo com ele, na semana passada foi realizada uma assembleia com a categoria, na sede do Sindicato, no bairro de Santo Amaro, área Central do Recife. Por unanimidade, os rodoviários aprovaram a suspensão da convenção coletiva que garante o acúmulo de função por parte do motorista, aquela aprovada na época da gestão do ex-presidente Benilson Custódio.

Aldo relata que já enviou um comunicado à Urbana-PE sobre o resultado da assembleia. "Por mais que ele digam que isso (a dupla função) está em convenção, esse acordo foi aprovado pela gestão anterior de maneira fraudulenta. E o que foi aprovado foi a facultabilidade da dupla função. O motorista pode ou não querer. O problema é que, se ele não aceita, perseguem, demitem, remanejam ele de linha. Isso causou um problema gigante na categoria", afirma Aldo. "A dupla função não é nenhum avanço. É um grande retrocesso", completa.

O presidente do Sindicato explica, ainda, que há uma reunião marcada com o Governo do Estado para o próximo dia 11 de março, para falar sobre o tema. Enquanto isso, segundo ele, a categoria segue mobilizada. De acordo com o Sindicato dos Rodoviários, 199 linhas rodam sem cobradores atualmente no Grande Recife. A reportagem solicitou à Urbana-PE e ao Grande Recife Consórcio informações sobre as linhas que trafegam atualmente sem os cobradores e aguarda resposta dos órgãos.

Sobre o protesto realizado na manhã desta quarta-feira, a Urbana enviou uma nota. Confira a íntegra:

A Urbana-PE reitera que não houve demissões de cobradores motivadas pelo alteração no procedimento de embarque e que tem havido um esforço das empresas para capacitar os profissionais para serem aproveitados como motorista ou em outras funções. A mudança tem ocorrido segundo definição do órgão gestor, e consentimento do próprio Sindicato dos Rodoviários, conforme convenção coletiva da categoria, e dos operadores.

O Grande Recife Consórcio informou, também por meio de nota, que 215 linhas de ônibus operam sem cobrador no Grande Recife e 1.264 motoristas acumulam função. O órgão reafirmou que a iniciativa foi aprovada em convenção coletiva e que os condutores recebem um acréscimo de R$ 135 no salário. "O Consórcio reforça que tem autorizado a substituição do cobrador por esta nova modalidade de cobrança da tarifa apenas em linhas com baixa demanda de pagamento em dinheiro. Com relação às recentes paralisações de motoristas e cobradores, o Grande Recife vem trabalhando para otimizar a operação com remanejamento de frota para suprir a demanda e minimizar os impactos para os usuários".

Frente de luta

A Frente de Luta pelo Transporte Público de Pernambuco, por meio do advogado Pedro Josephi e do estudante Márcio Morais, representantes da sociedade civil no Conselho Superior de Transporte Metropolitano (CSTM), apresentaram, nesta quarta-feira, ao secretário Marcelo Bruto, presidente do CSTM, um pedido cautelar para que sejam suspensas as retiradas de cobradores das linhas de ônibus.

Ainda em novembro de 2019, os Conselheiros já haviam solicitado que o órgão colegiado pudesse analisar e apreciar a matéria tendo em vista que o Grande Recife vem autorizando a retirada de cobradores sem submeter a discussão ao Conselho Superior. Todavia, na primeira reunião do CSTM tal pauta não foi incluída, o que deve ser feito na segunda reunião deste ano, marcada para 27 de março, na sede da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação.

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