Caso Mirella

Réu no Caso Mirella, Edvan rompe silêncio: 'Provas podem ser criadas'

Em entrevista exclusiva, Edvan rebate perícias apresentadas pela Polícia Civil e nega envolvimento com morte de fisioterapeuta

Gabriel Dias
Gabriel Dias
Publicado em 20/06/2017 às 19:40
Foto: Luiz Pessoa/JC Imagem
Em entrevista exclusiva, Edvan rebate perícias apresentadas pela Polícia Civil e nega envolvimento com morte de fisioterapeuta - FOTO: Foto: Luiz Pessoa/JC Imagem
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Entre 3.200 homens encarcerados no Presídio de Igarassu, na Região Metropolitana do Recife (RMR), um se destaca sozinho na sala da administração. Com os cabelos cortados, barba feita e aliança no dedo, o comerciante Edvan Luiz da Silva, de 32 anos, recebeu a reportagem do Jornal do Commercio para falar sobre o capítulo de sua vida que foi lido e assistido por toda a sociedade pernambucana. Definitivamente, o que faz deste homem um protagonista não é sua camisa amarela fluorescente ou as marcas de expressão que pulam de seu rosto a cada frase que pronuncia, mas sim o motivo que o levou até aquele lugar. Ele é acusado de estuprar e matar a própria vizinha, a fisioterapeuta Tássia Mirella Sena de Araújo, 28, no dia 5 de abril deste ano, em um flat em Boa Viagem, Zona Sul do Recife.

A entrevista exclusiva ao JC foi realizada na manhã desta terça-feira (20), um dia antes da primeira audiência de instrução do Caso Mirella, marcada para esta quarta-feira (21). Durante todo o encontro, o comerciante manteve fixamente um olhar cabisbaixo. “Dizem que o ser humano é adaptável. Mas em uma situação como essa é impossível se adaptar. Se você tem ideia do que é uma cadeia, pode ter certeza que é pior ainda”, afirmou sobre os últimos dois meses de reclusão.

>> Vídeos mostram suspeito de matar fisioterapeuta momentos antes do crime

Edvan foi preso no mesmo dia do crime. Rastros de sangue que começavam na porta do apartamento da vítima e invadiram o corredor até a porta do comerciante deram a primeira pista aos investigadores. Dentro do apartamento do acusado, um homem de cueca, com marcas de luta corporal, e que não atendeu aos insistentes apelos da Polícia para abrir a porta, reforçou a suspeita. Somados a isso, um trabalho minucioso de médicos legistas que encontraram o material genético da vítima nas marcas de sangue encontradas na residência de Edvan e fragmentos da pele dele embaixo das unhas dela. Sem falar dos, até então, longos fios de cabelo preto dele presos nas mãos do cadáver deitado no local do crime.

Apesar de todas as evidências que colocam Edvan dentro do flat de Mirella, onde o crime aconteceu, e o identificam como principal suspeito da morte da fisioterapeuta, o comerciante se mantém fiel à sua primeira versão. “Não fui eu que matei a Mirella”, repete incansavelmente. Na tentativa de refutar todas as perícias apresentadas pelos investigadores, Edvan ainda lança a suspeita de fraude nas investigações e questiona as provas apresentadas pela Polícia Civil. “Provas podem ser criadas”, declarou.

O crime

Amante do judô há 22 anos, quando questionado se sentia falta da prática do esporte dentro da prisão, Edvan afirmou que “sente falta da própria vida”. Esse sentimento começou a bater nele no dia 5 de abril de 2017, uma quarta-feira, quando foi preso pela polícia. De acordo com o suspeito, na noite da terça (4), anterior ao dia da morte de Mirella, ele e outros dois amigos foram para bares da Zona Sul. “Fui jantar com um amigo de Maceió que fazia muito tempo que a gente não se via. Eu, ele e o irmão dele. Fui para um bar, depois fui para outro bar, depois fui para um posto, depois fui para casa”.

As câmeras de segurança do circuito interno do condomínio Golden Shopping Home Service mostraram que Edvan chegou em seu carro às 6h56 na garagem do prédio e, em seguida, às 6h58 foi visto dentro do elevador subindo até o 12º andar, onde morava e onde o crime aconteceu. De acordo com Edvan, no momento em que as portas do elevador se abriram, ele foi direto para seu apartamento, onde comeu, tomou banho e foi dormir. Uma versão diferente do que é defendido pela Polícia Civil, que afirma que o comerciante teria entrado em casa, trocado de roupa e ido para o apartamento da fisioterapeuta, onde teria tentado manter relações sexuais com a jovem.

 

Diante da negativa sobre a ida ao apartamento de Mirella, Edvan é questionado se, assim como outros vizinhos, ouviu os gritos de Mirella pedindo socorro. “Eu não ouvi. Eu não ouvi. Talvez porque eu estava tomando banho ou fazendo alguma outra coisa, eu não ouvi”, afirmou.

Tentando se livrar das acusações, ele afirma que não teve ligações com o crime. “Nada me atribui a esse assassinato”, afirmou. Indagado sobre a possível motivação sexual que teria feito, segundo a Polícia Civil, com que Edvan invadisse o flat da fisioterapeuta, o comerciante afirmou que “era casado, muito bem casado, não teria por que eu fazer isso. Eu não tenho esse perfil”.

Logo após o fim dos gritos de Mirella, um funcionário subiu até o apartamento e localizou o corpo da mulher deitado no chão. Ao chegar no local, os investigadores encontraram marcas de sangue entre a porta da jovem e a porta de Edvan, o que indicaria que o assassino da fisioterapeuta teria se refugiado dentro daquele apartamento. Os policiais, então, começaram a bater insistentemente na porta para falar com o morador, mas a porta só foi aberta após a chegada de um chaveiro. “Eu não ouvi. Meu sono é pesado. Estava cansado e não ouvi eles chamando. Se eu tivesse cometido o crime, eu teria aberto a porta. Qual a intenção em ficar trancado?”, afirmou. Com relação às marcas de sangue na porta, Edvan não soube explicar. “Eu não vi, mas acredito que o assassino pode ter tentado limpar os pés no tapete e acabou encostando na porta”, afirmou. A polícia não especificou se foi encontrado sangue em algum carpete.

Ao entrar no apartamento, os policiais encontraram Edvan deitado apenas de cueca e com uma marca de sangue na perna, fato que ele explica como tendo sido causado por uma briga na noite anterior. “Eu briguei com um flanelinha. Ele quis me cobrar o estacionamento e nós brigamos. Acho que aquele sangue era por essa briga”. Ele afirmou ainda que não sabia quem era o flanelinha.

Outro fato que, segundo a Polícia Civil, comprova a autoria de Edvan no crime são vestígios de sangue localizados com auxílio do reagente luminol na pia da cozinha, no chão e no banheiro do apartamento do comerciante. O comerciante contestou a versão da Polícia. “No momento em que a polícia entrou, não tinha nada no apartamento. Isso é o que a polícia diz. Eu contesto. A polícia afirma que eu cheguei, troquei de roupa, fui para o apartamento dela, tentei manter relações sexuais com ela, depois a matei, tudo em um curto espaço de tempo. Não seria possível, para fazer tudo aquilo, era necessário mais tempo”, afirmou.

Sobre camisas encontradas ensanguentadas e que a Polícia afirma que seriam de Edvan, o comerciante interpela: “eu fui só de camisa? Cadê uma bermuda suja de sangue? A roupa que eu cheguei, eu mostrei para o delegado e não acharam nada”.

A perícia encontrou material genético de Edvan embaixo das unhas de Mirella. Quando perguntado, Edvan disse que “perícias falham” e reafirmou que “era inocente”.

Com relação ao exame podoscópico que atestou que a impressão do pé de Edvan foi encontrada no apartamento de Mirella, Edvan foi irônico. “Encontraram apenas um pé. Eu sou saci? Só ando com um pé?”.

Por fim, Edvan duvidou do conjunto de perícias. “Provas podem ser criadas”. Perguntado se achava que a Polícia poderia ter criado alguma prova, ele disse que “tudo leva a crer que sim. Se eu não fiz, e encontram-se essas provas contra mim”.

Outro crime

Na semana passada, a Polícia Civil afirmou que Edvan seria um dos suspeitos da morte de outra mulher, em 2013, no bairro do Cabanga. Sobre este caso, Edvan afirmou que “ainda não fui interrogado” e que, apesar de ter sido interrogado anos atrás sobre o crime ele “não sabe dos novos fatos”.

“Do futuro, eu só espero que tudo venha as claras e que minha inocência apareça”, finalizou.

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