Tradição

Segundo dia da série Carnavais Saudosos traz Cabela, fundador da Ceroula

Quando o Bloco Ceroula de Olinda aponta no início da ladeira, no sábado de Carnaval, o coração de Antônio Aurélio Sales, 79 anos, bate mais forte.

Wladmir Paulino
Wladmir Paulino
Publicado em 15/01/2018 às 7:01
Foto: Felipe Ribeiro/ JC Imagem.
Quando o Bloco Ceroula de Olinda aponta no início da ladeira, no sábado de Carnaval, o coração de Antônio Aurélio Sales, 79 anos, bate mais forte. - FOTO: Foto: Felipe Ribeiro/ JC Imagem.
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Quando o Bloco Ceroula de Olinda aponta no início da ladeira, no sábado de Carnaval, o coração de Antônio Aurélio Sales, 79 anos, bate mais forte. Mas ninguém no grupo sabe quem é Antônio. Só o conhecem como Cabela, um dos fundadores da agremiação. Cabela é o segundo personagem da série Carnavais Saudosos, que resgata a história da folia pernambucana por meio de detalhes exclusivos da velha guarda. Os textos são de Larissa Rodrigues e as imagens de Felipe Ribeiro.

Há cinco décadas, Cabela mora na mesma casa, na Rua 15 de Novembro, via de acesso à Prefeitura de Olinda. É na frente da casa de Cabela que acontece o momento mais importante do desfile da Ceroula, a homenagem a ele, que atualmente prefere acompanhar o tributo pela janela. “Tem que segurar o coração. Se eu ficar na rua, a turma me carrega. Já aconteceu isso, não aguento mais esse embalo não. A turma quer me levar. Deixe eu na janela mesmo.”

Se hoje Cabela opta por se preservar, nos primeiros anos do Ceroula de Olinda era bem diferente. O bloco foi criado em 1962 por ele e quatro amigos. Pouco tempo depois, em 1963 ou 1964, ele não tem certeza, a cachaça foi tanta que preocupou a família. “Minha filha, eu tomei uma que dormi na casa de uma senhora daqui (de Olinda) e todo mundo ficou me procurando, ninguém sabia onde eu estava e ela também não sabia que eu tinha que avisar em casa”, lembrou. “Só foram me achar no outro dia de manhã. Esse pessoal era conhecido, eu cheguei lá e arriei, aí me deixaram lá bêbado.” Nessa época, Cabela ainda era solteiro, porém noivo. A noitada, disse ele, não prejudicou o relacionamento. “Depois, souberam que eu tinha dormido na casa da mãe de uns amigos, aí não teve confusão. Foi na Rua São Bento, com o pessoal da Pitombeira.”

Antes de fundar a Ceroula, Cabela saía na Troça Carnavalesca Mista Pitombeira dos Quatro Cantos, criada em fevereiro de 1947. Os carnavais de Cabela eram entre três blocos, Pitombeira, Ceroula e Elefante de Olinda, embora no passado houvesse grande rivalidade entre Pitombeira e Elefante. Mas Cabela explicou que sua família era da Pitombeira e sua noiva do Elefante. Como ele inventou a Ceroula, acabava brincando nos três. “Antes de existir o Ceroula, havia a Pitombeira e minha família era toda da Pitombeira, então eu era apaixonado mesmo pela troça. E minha esposa era Elefante, mas não havia confusão nem da minha parte nem da dela. Eu saía nos três, não tinha problema nenhum.”

A Pitombeira, inclusive, aprontou uma com Cabela na década de 1960. O fez sair fantasiado de Herodes e abraçar a mulher do governador de Pernambuco na época, Nilo Coelho. A agremiação tinha o costume de formular as fantasias sem que a pessoa soubesse qual seria o personagem. As medidas de cada pessoa eram tiradas de olhos vendados e só se descobria que papel faria no dia do desfile.

“Nesse Carnaval, um dos diretores da Pitombeira disse ‘vamos botar uma fantasia nesse rapaz que ele quando souber, vai ficar irritado’. Quando chegou na hora de sair, eu estava de Herodes. O tema daquele ano foi os Dez Mandamentos. Eu saí em cima de um carro com uma pessoa fazendo o papel de minha esposa”, contou.

Conde da Boa Vista

Nesse Carnaval, segundo Cabela, a festa era na Avenida Conde da Boa Vista. “Quando nós descemos a avenida, eu abracei a esposa de Nilo Coelho e a moça que ia fazendo o papel de minha esposa abraçou Nilo Coelho. Mas eles gostaram, não teve problema. Era uma brincadeira sadia. Esse foi um ano espetacular.” Outra lembrança que remete ao momento político da época refere-se à criação do Ceroula. Segundo Cabela, a ideia inicial era sair de cueca. “Existia a Turma do Pijama e a gente queria fazer um negócio parecido. Naquele tempo, algumas coisas eram proibidas pela censura, não podíamos sair de cueca, então fizemos ceroulas. Foi uma brincadeira para nos divertirmos com nossas namoradas, que participaram de tudo. Não esperávamos que fosse crescer da forma que cresceu, fazer história.”

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