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Estudante de direito acusa policiais civis de sequestro e tortura

Vatsyani Marques Ferrão, 43 anos, fez as acusações em sua página pessoal no Facebook

Do JC Online
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Publicado em 25/08/2013 às 13:53
Foto: Divulgação/Facebook
Vatsyani Marques Ferrão, 43 anos, fez as acusações em sua página pessoal no Facebook - FOTO: Foto: Divulgação/Facebook
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A estudante de direito Vatsyani Marques Ferrão, 43 anos, está acusando dois agentes da Polícia Civil de Pernambuco, supostamente lotados na Delegacia do Idoso, de a terem sequestrado e espancado brutalmente por duas horas na manhã da última quinta-feira, no Centro do Recife, contratados por uma pessoa denunciada recentemente por desvios de dinheiro e roubo. As acusações estão na página pessoal da universitária no Facebook, sustentada por fotos da violência sofrida por ela. As imagens impressionam pela força das agressões. Há marcas de socos no rosto e hematomas pelos braços. A mãe de Vatsyani, Zelane Marques, 65 anos, também teria sido agredida no episódio, antes de os homens arrastarem a filha para um veículo preto, descaracterizado. As imagens dela também estão nas redes sociais.

O crime teria acontecido no bairro da Boa Vista, às 10h40. A versão contada por Vatsyani Marques Ferrão no Facebook é confirmada pelo advogado da universitária, André Henrique Fonseca, que diz ter registrado o suposto sequestro na Delegacia de Santo Amaro, com a realização de um exame de corpo de delito, e amanhã pretende levar o caso à Corregedoria da Secretaria de Defesa Social (SDS), além de tentar o reconhecimento dos policiais acusados na Delegacia do Idoso. A estudante conta que saía da casa da mãe, de carro, quando pelo retrovisor a viu sendo agredida por dois homens. Retornou de imediato, achando tratar-se de um assalto. “Vatsyani não percebeu que os dois homens, de cara limpa, mas sem qualquer identificação, perguntavam por ela, enquanto tentavam segurar sua mãe. Quando começou a gritar, os homens perceberam que ela era quem procuravam, agarraram-na, puxando pelos cabelos e batendo, e a arrastaram para um veículo preto, sem identificação. Muitas pessoas na rua viram a cena”, conta o advogado.

Enquanto estava no veículo, conta a estudante no Facebook, os dois homens teriam continuado a agredí-la. “Começaram a me torturar, o que estava na direção me dava cotoveladas no rosto e o outro ficava com o revólver me ameaçando por eu estar gritando muito...eles sabiam tudo da minha vida, a placa do meu carro e o meu endereço.. quanto mais eu gritava mais era torturada.. o motorista puxou muito meus cabelos e deu muita cotovelada no meu rosto”, relata. André Henrique diz que a sorte de sua cliente foram os gritos dela terem chamado a atenção de uma viatura da Companhia de Trânsito e Transporte Urbano (CTTU), no cruzamento da Avenida Conde da Boa Vista com a Rua José de Alencar, na Boa Vista.

“Vatsyani gritava muito, pedindo socorro, mesmo algemada e sendo agredida. Os sequestradores falavam que quanto mais ela gritasse, mais iria apanhar. Só que o barulho chamou a atenção de uma viatura da CTTU, que pediu para o carro parar no cruzamento. Foi quando ela descobriu que os sequestradores eram policiais civis. Eles disseram aos agentes que minha cliente era viciada em cocaína, estava drogada e que iriam levá-la para a delegacia. Talvez por inexperiência, os agentes de trânsito liberaram os dois mesmo sem pedir uma identificação, mas disseram que anotariam a placa do veículo. Foi a sorte dela. Os sequestradores afirmaram isso. Que só não iria morrer por causa dos agentes”, conta.

Chegando à Delegacia do Idoso, na Rua da Glória, também área central do Recife, a universitária conta ter sido arrastada pelos cabelos até a sala do delegado, embora ele não estivesse presente. Lá, teriam recomeçado os espancamentos. “Deram vários chutes na minha cabeça.. estava tão em pânico.. entrou outro policial e pediu que parassem. Fiquei com muitas dores sem saber de nada, por que estava acontecendo aquilo comigo... uma comissária presente disse que iria filmar tudo e que era para dizer que eu estava me debatendo. Depois o delegado chegou e mandou eu ir embora... eu falei que não podia ir toda desfigurada, sem meu celular e bolsa...o delegado percebeu que não se tratava de um cão sem dono e me devolveu o celular... foi quando comecei a ligar para todo mundo, para meu advogado”, relata a universitária. O delegado em questão, segundo André Henrique, é Eronildo Rodolfo de Farias, titular da Delegacia do Idoso - a informação foi confirmada pelo Chefe da Polícia Civil, Osvaldo Moraes.

“Quando eu cheguei à delegacia fiquei horrorizado com o estado da minha cliente. O que está no Facebook é pouco. Ela estava completamente desfigurada e transtornada. Indaguei quais as razões daquilo tudo e o delegado apenas me disse que ela era acusada de desacato à autoridade e responderia a um TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência)”, resumiu o advogado, denunciando, também, a lentidão para que sua cliente registrasse o caso e fosse submetida à perícia. André Henrique não quis revelar quais as razões da suposta violência e do envolvimento dos policiais. Disse apenas acreditar que o sequestro tenha relação com a denúncia de um esquema de furto denunciado recentemente por sua cliente e a mãe dela. “Essa é a linha que acreditamos, mas não queremos adiantar nada para não atrapalhar as investigações que serão feitas”, desconversou.

Diante da possibilidade de a estudante ter sido agredida por ter participado dos protestos ocorridos na última quarta-feira no Centro do Recife, quando um ônibus foi incendiado, uma estação de bike share foi destruída, além de outras depredações, o advogado nem confirmou nem negou a possibilidade. Não quis nem mesmo informar se ela tinha participado dos atos. Relatos de que alguns manifestantes teriam sido sequestrados e agredidos foram feitos nas redes sociais, mas sem detalhes ou informações mais apuradas sobre as supostas vítimas.

APURAÇÃO - A SDS já está ciente da denúncia da universitária. A Corregedoria de Polícia, segundo a assessoria de imprensa da secretaria, já teria instaurado uma sindicância. Ontem, o chefe da Polícia Civil, Osvaldo Moraes, garantiu que tudo será investigado. “Adianto que não compactuamos com esse tipo de atitude, ainda mais praticada por um servidor público. Sendo verdade, responderão criminal e administrativamente”, disse. O delegado do Idoso, Eronildo Rodolfo de Farias, não foi localizado pela reportagem.

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