Festival Recife

Marcus Siqueira e o seu legado para o teatro pernambucano

Ator e diretor, que morreu há 31 anos, é o homenageado do Festival Recife do Teatro Nacional

Mateus Araújo
Mateus Araújo
Publicado em 25/11/2012 às 8:30
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A atriz Cacilda Becker (1921-1969) morreu um ano após o ator e diretor paraibano Marcus Siqueira (1940-1981) conseguir criar o Teatro Novo do Recife, em Pernambuco. Mas, na bilheteria do casarão, uma das sedes do extinto grupo, no Varadouro, em Olinda, uma frase da mulher-mito do palco brasileiro, oito anos depois, era reescrita na parede como um grito de alerta: "Não me peça de graça a única coisa que eu tenho para vender". Era 1968 - o Brasil tratava com desleixo a função do ator - quando Siqueira, amigo dos "padres de passeata", amigo de Dom Helder Camara, pôs em prática o sonho de uma companhia, embora a pressão da ditadura militar rondasse o País àquela época. Ele se lançou naquilo que amava e ergueu uma história que deixou frutos e lembranças inesquecíveis.



Homenageado do Festival Recife do Teatro Nacional deste ano, Marcus Siqueira chegou a Pernambuco na década de 1950, vindo da Paraíba com a sua família. A carreira de ator era ignorada pelos pais, mas o desejo de estar no palco sempre falou mais alto. Na Escola de Belas Artes, da Universidade do Recife, descobriu a verve política das artes cênicas e, em 1968, criou o seu Teatro Novo do Recife. A sede era um dos prédios anexos do Palácio dos Manguinhos, casa do clero local, então sob o comando de Dom Helder.

A adaptação de O doente imaginário, de Molière, marcava a estreia do grupo. Era uma sexta-feira, dia 4 de outubro de 1968, às 22h. Foi dali adiante. De mudanças de sede a mudança de nome, a história do grupo politizado do teatro pernambucano viveu perseguições, censuras e dias de auge. Foi em junho de 1976 que a companhia de Siqueira passou a se chamar Teatro Hermilo Borba Filho (THBF), nome atribuído àquele que o diretor considerava seu mestre.

O que fez Marcus Siqueira estampar na bilheteria do casarão a frase de Cacilda Backer foi o seu olharvoltado à profissionalização do ator, preocupado com uma arte que fosse além da estética e enveredasse pelo discurso intelectual político. "O fato de ele ter essa centralidade no ato, fazia com que se focasse tanto no ponto de vista técnico como intelectual do elenco. Tínhamos aulas de técnica, teoria e corpo, em que discutíamos desde o teatro grego ao brasileiro. Além disso, o THBF abria espaços para encontros e minicursos com nomes como Guarnieri, Carlos Vereza e Fernando Peixoto", lembra a atriz e jornalista Stella Maris Saldanha, que entrou no grupo aos 16 anos e aos 18 protagonizou uma das grandes montagens dirigidas por Siqueira, Os fuzis da senhora Carrar (1978), com texto de Bertolt Brecht.

Foram 12 anos de THBF, encerrados junto com a morte do seu criador. Marcus Siqueira morreu em 1981, vítima de uma infecção generalizada após extrair um dente. Era véspera da estreia do espetáculo Por telefone, com texto de Antônio Fagundes, em que Siqueira dividia a cena com Sandra Carreira. A peça só foi apresentada no ano seguinte, com Josenildo Marinho substituindo o ator e direção de João Denys. "Ninguém teve coragem de tocar o grupo sem ele", conta Stella Maris.

Leia a matéria completa no Caderno C deste domingo (25).

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