Maratona cênica

Janeiro de Grandes Espetáculos faz festa para encerrar edição memorável

Festival entregou também troféus aos melhores do teatro e da dança em plena Rua da Aurora

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 01/02/2014 às 6:16
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Na última quinta, as salas de espetáculo estavam especialmente vazias: a classe teatral ocupou o trecho da Rua da Aurora em frente ao Ginásio Pernambucano. Com o mestre de cerimônias Roger de Renor, que armou ali o som da sua rural, militantes das artes cênicas receberam os troféus de mais uma edição do Prêmio Apacepe, durante o encerramento do 20º Janeiro de Grandes Espetáculos – edição que consagra o festival como um dos mais bem concebidos e estruturados do País. “Foi um mês de muita intensidade nos teatros, é muito bom ver os colegas, artistas, assim, ocupando o espaço público”, dizia Ceronha Pontes, premiada como Melhor Atriz pela (excelente) Camille Claudel – peça que, passado o festival, entra na fila das produções “sem-teto”, em busca de pauta num teatro local.
    Não faltou, na cerimônia, o tom político: “Festivais são ótimos”, disse o homenageado Jomard Muniz de Britto. “Mas me preocupo mesmo é com o dia a dia. Há um pequeno grande escândalo na cidade: o Teatro do Parque fechado. Alguém precisa dizer a GJ (o prefeito Geraldo Julio) que o Recife precisa ter o Parque de volta.” Sim, festival é bom e esta 20ª edição do Janeiro deve, sem esforço, ser classificada como memorável.
    Com o orçamento apertado e incerto, os produtores Carla Valença, Paula de Renor e Paulo de Castro bailaram no fio da navalha e fizeram uma maratona grandiosa: mais de 60 espetáculos – locais, boas produções nacionais e internacionais.
    Com sessões extras, ingressos populares e venda pela internet, o festival teve um aumento de 30% de público: com a programação ainda em cartaz até amanhã, em Goiana, são até agora 31 mil espectadores. Com patrocínios não confirmados, a produção teve que fazer ajustes no orçamento de R$ 1,6 milhão para R$ 1,2 mi. “Em alguns momentos, tivemos que arriscar e fazer milagres”, diz Carla Valença (leia entrevista abaixo).
    Um dos méritos do festival foi a interiorização de bons espetáculos. Sem a política de esmolas, as cidades de Goiana, Arcoverde e Caruaru receberam peças até internacionais. O outro está na própria grade: a curadoria extensiva e criteriosa. Como membro da rede de Festivais de Teatro do País, os prodtores conseguiram se revezar ao longo do ano para trazer produções raras como a escocessa Se esses espamos falassem e afiadas como a carioca A primeira vista.A presença de curadores desses festivais garantiu também visibilidade e convites às produções locais.
    A grade foi como deve ser num festival tão heterogêneo: altos e baixos. Se teve decepções como A Negra Felicidade, de Moacir Goés, trouxe pontos altíssimos como delicada comédia cearense Avental Sujo de Ovo e performances delciosamente intimistas como Adaptação (RS). Outro trunfo foi ter servido de plataforma para estreia de bons espetáculos locais. “O Janeiro nos dá tudo o que um ator quer pra uma estreia: teatro cheio, público, e o olhar externos dos curadores”, disse Júnior Aguiar, premiado como o melhor espetáculo por H(EU)história - O Tempo em trase, sobre a relação de Glauber Rocha com a história. Ao lado de Terra, espetáculo de dança de Maria Paula Costa Rêgo, a peça sai do festival como uma das potências que bombarão nas temporadas regulares ao longo do ano.


JORNAL DO COMMERCIO –Além de grande e trabalhosa, a grade do Janeiro de Grandes Espetáculos é onerosa. Como vocês conseguem viabilizá-lo?
CARLA VALENÇA – Nosso orçamento previsto era de R$ 1,6 milhão. Mas a gente teve que fechar em R$ 1,2 milhão. Houve espetáculos que não trouxemos, porque não tínhamos como contemplar com o orçamento. Cortamos um espetáculo da Espanha, outro da Austrália. Saímos cortando e renegociando vários cachês, renegociados com espetáculos locais, nacionais. Fomos muito sinceros, porque a gente não tinha orçamento. As nossas incertezas são imensas. A gente só sabe dos orçamentos em cima da hora. Salvo os patrocínios da Caixa (Econômica) e da Funarte, só sabemos dos apoios do Governo do Estado e da Prefeitura (do Recife) em cima da hora.

JC – Todos os anos a rotina se repete?
CARLA – Sim, essa mecânica se reproduz. A gente vai fazendo o Janeiro com a cara e a coragem. Com os (espetáculos) locais, nós assumimos os cachês, há valores fixos. Cerca de R$ 3,5 mil (para cada). É óbvio que esse cachê não é o ideal, mas a gente não paga mais, porque não tem verba. Se é um espetáculo com três ou quatro atores, OK. Mas tem espetáculo com 20 pessoas.

JC – Muitos espetáculos têm procurado o Janeiro para suas estreias. Como surgiu a demanda?
CARLA ­- Este ano, por exemplo, tivemos a estreia de H(eu)stória e mais três ou quatro. O festival serve muito como uma vitrine para os espetáculos locais. Também tem a questão de que os editais saem no segundo semestre e, assim, conseguem já fazer a estreia em seguida. Conosco, conseguem também a pauta em um teatro, nem sempre disponível. O Janeiro tem prestado esse serviço à classe artística. Com a presença dos curadores de fora aqui, alguns desses espetáculos podem ser convidados para circular em outros festivais. Ainda é muito difícil para as artes cênicas. O cinema e as artes plásticas conseguem circular mais, mas para o teatro ainda é caro e difícil. Com o Recife Palco Brasil, os espetáculos têm apoio à circulação pela prefeitura.

JC – Como vocês conseguem fazer uma curadoria tão abrangente?
CARLA – Fazemos parte da rede do Núcleo dos Festivais Internacionais de Artes Cênicas do Brasil. Eu, Paula (de Renor) e Paulo (de Castro) somos convidados para vários festivais. Paula, ano passado, foi para Edimburgo e viu o If these spasms could speak, então convidou o espetáculo. Eles amaram o Janeiro, porque foi o maior público do espetáculo em toda sua careira. Sim, somo nós três, mas temos gente da rede que ajuda, bons programadores. Agora, temos um conceito: a gente prefere sempre ver o espetáculo ao vivo, um dos três. Também acolhemos o que está bem cotado.

JC – Como funcionam as parcerias para trazer produções distantes e, portanto, mais caras?
CARLA – Muitas vezes, eles têm patrocínio para circulação, mas não têm a pauta, que conseguimos. Há situações em que a gente procura viabilizar a hospedagem, os apoios locais. Como no caso de Era uma vez....Grimm. Nós assumimos a assessoria de imprensa, a logística, os técnicos locais. Damos toda a infra-estrutura para esses espetáculos acontecerem. Não é só receber. Para trazer Era uma vez...isoladamente, seria uma fortuna. Para nossa realidade financeira, fazemos milagre.

JC – Mas acaba o festival e tudo recomeça...
CARLA –  Marcus André Carvalho, secretário nacional de Economia Criativa, ficou muito entusiasmado com o festival. Acaba um festival desses e começa nossa peregrinação de novo. Ficamos pela sorte, um ano é mais promissor, outro menos. Quando o ano é eleitoral, é mais confuso ainda. Um festival que acontece há 20 anos, mas não tem garantia de nada! Temos o compromisso social de fazer uma temporada mais popular, para dar acesso ao público mais amplo. Este ano, tivemos um aumento bem relevante de público: em 30%. A cada dois anos, vivemos eleições, temos muita verba canalizada para a Copa do Mundo. O edital da Petrobras diminuiu muito, tem uma retração de patrocinadores. Gostaríamos de ter garantia para planejar mais. Janeiro é alta estação, então deixamos para comprar as passagens em cima da hora, que são muito caras. Somos independeste, mas dependemos muito dos apoios. A parceria com o Sesc foi muito importante para realizar no interior. Estamos levando espetáculos de outros Estados e países para o interior também.

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