Dança

Edson Vogue: Muito além de uma pose

Coreógrafo apresenta 'Gritam-me Vogue', coreografia que celebra movimento de contracultura criado por LGBTs

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 03/11/2017 às 17:26
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Coreógrafo apresenta 'Gritam-me Vogue', coreografia que celebra movimento de contracultura criado por LGBTs - FOTO: Foto: Divulgação
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Faça um pose – vogue. Uma das canções mais emblemáticas da cultura pop, Vogue, de Madonna, disseminou no imaginário coletivo um movimento nascido na cena LGBT periférica de Nova Iorque, nos anos 1980. Sua complexidade, porém, é pouco difundida. Ainda hoje um símbolo de resistência e visibilidade para corpos marginalizados, a dança continua a ser reinterpretada e expandida. Em Pernambuco, o maior representante do estilo é Edson Lima, que assina Edson Vogue. Nesta sexta-feira (3), ele apresenta a coreografia Gritam-me Vogue, às 19h, no Teatro Hermilo Borba Filho, dentro do festival Cena Cumplicidades.

Originado nos balls, movimento de contracultura que reunia majoritariamente LGBTs negros e latinos em espécie de bailes com competições e apresentações artísticas, o vogue (ou voguing) tem seu nome derivado da famosa revista de moda. Isso porque grande parte dos movimentos emulam as poses feitas por modelos, amplificando-as com muita elasticidade e, assim, mesclando elegância e assertividade. Algo como se a pista de dança se transformasse em uma passarela e uma plataforma política. Era uma expressão daqueles deixados à margem e que tentavam transformar em arte as agruras importas pela sociedade.

Quando Madonna lançou Vogue, em 1990, atingindo o primeiro lugar nas paradas, a dança ficou conhecida mundialmente, mas poucos conhecem, até hoje, a origem dos movimentos e sua importância para a comunidade LGBT. Uma excelente introdução ao universo dos balls e dos artistas precursores é o filme Paris Is Burning, documentário que registra a cena no final dos anos 1980.

O caráter estético foi a primeira coisa que chamou a atenção de Edson para a dança, em 2007. A destreza dos movimentos, a beleza. Mas, à medida em que ia buscando mais referências, o encanto ganhou proporções ainda maiores, graças à percepção do caráter político e de representatividade que o voguing carrega.

“Sempre me interessou a beleza e a elegância dos movimentos, além disso, é uma dança que sempre esteve associada aos LGBTs e às mulheres”, explica. “Quando pesquisei a história da cultura dos balls, entendi o processo político de afirmação de corpo, de questões de identidade de gênero, raça e sexualidade”, explica.

Gritam-me Vogue, coreografia que ele apresenta nesta sexta-feira (3) – na ocasião também serão encenados os projetos Mundo ao Redor, de Adriana Carneiro, e (1/7) do Tempo, de Manuel Castomo – sintetiza muitas dessas questões. Criado ano passado para as comemorações da Semana da Consciência Negra, o trabalho parte do poema Gritam-me Negra, da poeta e coreógrafa peruana Victoria Santa Cruz.

“Queria trabalhar a corporalidade negra sem ser pelo âmbito da religião. Me interessava desenvolver um trabalho que falasse sobre a militância”, explica. Como trilha sonora, ele elegeu uma versão voguing de Formation, canção de Beyoncé considerada uma celebração da negritude e da resistência.

EM CONSTRUÇÃO

Segundo Edson Vogue, Pernambuco ainda não tem uma cena forte de voguing. “Estamos tentando criar uma cena, mas temos consciência que não vai ser de uma hora para outra. Ainda é muito recente aqui”, analisa.

Ele, por exemplo, dá aulas de vogue com stiletto (saltos altos) e também dissemina o movimento com ensaios abertos, dos quais todos podem participar, em espaços públicos. Antes centrados na Praça da Jaqueira, os encontros acontecerão na Praça do Hipódromo, aos domingos, às 14h.

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