Guimarães Rosa

27º Festival de Curitiba: o que 'Grande Sertão: Veredas' fala de nós

Diretora faz versão potente do clássico da literatura, traçando paralelos com a contemporaneidade

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 06/04/2018 às 16:48
Annelize Tozetto/Divulgação
Diretora faz versão potente do clássico da literatura, traçando paralelos com a contemporaneidade - FOTO: Annelize Tozetto/Divulgação
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Uma das atrações mais esperadas do 27º Festival de Curitiba ­– todos os ingressos foram vendidos pouco tempo após serem postos à venda ­– a versão de Bia Lessa para Grande Sertão: Veredas chega à capital paranaense, hoje e amanhã, com ainda mais possibilidades de leituras e reverberações. Em meio à turbulência política e social vivida pelo Brasil, estruturada como um espetáculo-instalação, a adaptação de uma das obras mais pujantes da literatura nacional oferece a chance de repensarmos o ser e estar no mundo.

Acompanhada do elenco, Bia Lessa iniciou a coletiva de imprensa, ontem, erguendo folhas com os emblemáticos (e problemáticos) dizeres de Romero Jucá, que em conversas gravadas sugeriu um “Grande pacto nacional, com o Supremo, com tudo”, em defesa de articulações para deter a Lava Jato e destituir a presidente eleita Dilma Rousseff.

“O Grande Sertão: Veredas, de alguma forma, está falando sobre isso [a situação que o país está vivendo]. Acho que a nossa profissão e o nosso ofício é um pouco falar da nossa posição dentro do planeta e a gente faz isso com o próprio espetáculo. O livro é formador e não é a toa que a gente resolveu fazê-lo neste momento. Ele é o nosso caráter: de novo o homem discutindo o bem e o mal, a coerência, o que é se transformar em humano,  o que é estar dentro da natureza, o respeito à diferença. Nesse momento em que o mundo está tão reacionário é fundamental que a gente dê um passo para frente”, explicou a diretora.

Questionada sobre a responsabilidade de levar para os palcos um clássico, Bia Lessa explicou que aquela, antes de tudo, é sua leitura e a dos atores em relação à obra de Guimarães. Não ficar presa ao cânone foi uma decisão fundamental para que eles pudessem encontrar um caminho fora da curva.

“Não dá para ter o autor como se fosse nosso patrão, pensar ‘o que será que o Guimarães diria?’. É o que eu penso sobre a obra do Guimarães. Temos que pensar nele como um companheiro porque na hora que a gente escolhe um autor, a gente já está homenageando ele”, pontuou a diretora. “O primeiro passo é desrespeitá-lo”, reforçou a atriz Luísa Arraes.

PROCESSO

Na montagem, os atores estão em cena a todo momento, revezando-se em diversos personagens, durante as quase três horas de encenação. A preparação para essa maratona cênica demandou cerca de quatro meses de ensaio e resultou em uma criação coletiva.

“Trabalhamos por pouco mais de quatro meses com o texto, o que hoje, no Brasil, é um privilégio muito grande. Tivemos que pensar como transpor essa poesia, essa língua inventada, essa criação absoluta, para uma linguagem dramática. Todo mundo passou por todos os personagens. A gente também pesquisou muito a questão de gênero, fazendo Diadorim homem com homem, mulher com mulher; Diadorim jovem, o próprio personagem como se constrói dentro do romance. Todo mundo também é tudo: é coisa, é pedra, é terra, é ar”, pontuou Caio Blat.

Como ressalta o ator, na encenação é que não há hierarquia entre os personagens. Seja interpretando pessoas ou bichos e plantas, os atores têm que se entregar da mesma maneira.

“A gente não está para representar, para imitar o outro; a gente está para dizer o que nós somos. Eles estão em cena o tempo inteiro, não tem descanso. A vida acontece ali dentro, os cansaços, as dores, não há preguiça. Na vida a gente não pode ter preguiça. Estamos ali, não é fácil, mas por isso que interessa. A vida não é moleza, ela é árdua. Então que seja assim”, disse a diretora, que fez questão de mesclar no elenco artistas de diferentes origens, gerações e vivências.

Outro aspecto interessante do espetáculo é que os espectadores utilizam fones de ouvidos, em uma experiência sensorial na qual é possível ouvir as vozes dos atores, efeitos sonoros e a trilha elaborada por Egberto Gismonti.

* O repórter viajou a convite do Festival de Curitiba

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