27º Festival de Curitiba

Em A Ira de Narciso, Sergio Blanco borra fronteira entre real e ficção

Peça de autoficção do dramaturgo franco-uruguaio é estrelada por Gilberto Gawronski

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 07/04/2018 às 19:07
Celso Curi/Divulgação
Peça de autoficção do dramaturgo franco-uruguaio é estrelada por Gilberto Gawronski - FOTO: Celso Curi/Divulgação
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Universalmente associado à vaidade, o mito de Narciso pode ter também outras leituras. Em uma delas, o belo jovem, ao olhar sua imagem nas águas do rio, ele via sua irmã gêmea, já falecida. A obsessão dele, portanto, não seria em fitar obcecadamente seu reflexo, mas de buscar a todo custo acessar o Outro. Essa possibilidade é explorada pelo franco-uruguaio Sergio Blanco em A Ira de Narciso, espetáculo estrelado por Gilberto Gawronski, que fez sua estreia nacional no Festival de Curitiba.

 O mito é o tema abordado por Sergio Blanco (interpretado por Gawronski), que além de dramaturgo também é professor, em um congresso em Liubliana, capital da Eslovênia. Logo que se instala na cidade, ele abre um aplicativo de “pegação” e conhece Igor. Após um tarde intensa de sexo, o rapaz vai embora e, só então, Blanco percebe manchas no carpete do quarto. Depois percebe outras tantas nas paredes. É sangue, ele se assegura. Mas o que teria acontecido ali? Mais: será que, de fato, teria sucedido algo?

Com uma dramaturgia original e hipnotizante, Sergio continua a explorar a autoficção, gênero que se tornou uma de suas marcas. Nela, ele se coloca enquanto personagem do texto, mas borra por completo a percepção entre o real e o inventado. Afinal, aprendemos a entender a biografia como um relato verdadeiro, mas, de fato, ela também pode ser (e muitas vezes é) uma construção. Gilberto Gawronski mostra um completo domínio de cena e puxa o espectador sem possibilidade de volta para aquele universo.

ISTO NÃO É A REALIDADE (OU É?)

Logo no início da encenação, ele explica que não é Sergio Blanco e nem está ali para atuar como Sergio Blanco. “Isso é um relato”, afirma. Parece uma confiança estabelecida com o espectador, a de que ele vai contar a verdade, apenas interpretando-a. O ator nos lê um e-mail do dramaturgo afirmando que só o brasileiro poderia interpretar o texto. Conta de como os dois se conheceram ­– anos atrás, no próprio Festival de Curitiba. Mas logo as águas ficam turvas e fica impossível atestar a veracidade do que nos é dito. O jogo é fascinante.

O dramaturgo e o ator, sob a direção segura de Yara de Novaes, criam uma atmosfera que por vezes encurrala o espectador e, em outras, parece um velho amigo relatando causos de viagem. Visceral, o espetáculo tem um engenhoso e preciso jogo de luz, assinado por Wagner Antonio. O cenário minimalista de André Cortez esconde muitas funcionalidades que ajudam, com muito pouco, a criar imagens impactantes, como a do protagonista alisando o fóssil de um mamute. A Ira de Narciso é uma obra que nos obriga a estar sempre alerta, o que é um triunfo em um momento de tantos lugares-comuns.

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