Adaptação

Crítica: 'Ligações Perigosas' ironiza frivolidade da elite

Montagem do Teatro de Fronteira marca retorno de Rodrigo Dourado aos palcos

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 21/05/2018 às 16:42
Ricardo Maciel/Divulgação
Montagem do Teatro de Fronteira marca retorno de Rodrigo Dourado aos palcos - FOTO: Ricardo Maciel/Divulgação
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Quando publicou Ligações Perigosas, em 1782, Choderlos de Laclos, um militar nascido em família burguesa, não poupou críticas aos jogos de poder da aristocracia em franca decadência. Era um momento de agitação social, no qual não cabiam mais o absolutismo e a rígida estratificação social arcaica. Sete anos depois, aconteceria a Revolução Francesa, que transformaria não só aquele país como também praticamente todo o Ocidente. O retrato feito pelo escritor daquele final do século 18, porém, continua assustadoramente atual, como mostra a adaptação do texto feita pelo Teatro de Fronteira, que estreou sexta-feira, no Teatro Hermilo Borba Filho.

Na trama, a Marquesa Merteuil e o Visconde de Valmont, nobres com pouco a fazer de suas vidas exceto se entregar aos excessos de prazeres – sexuais, principalmente –, se lançam em um jogo de sedução que tem como objetivo destruir as reputações de duas mulheres: a senhora Tourvel, casada, e Volanges, jovem virgem. Como dois tratores, a marquesa e o visconde entrarão em um processo de destruição das convenções sociais, utilizando todos os artifícios a seu dispor.

OLHAR ÁCIDO

Um romance epistolar, Ligações Perigosas chega ao palco com modificações necessárias para a fluidez da ação. A adaptação do Teatro de Fronteira é eficiente ao preservar o peso da crítica de Laclos sem perder de vista as várias camadas de ironia. Neste sentido, vale destacar o trabalho de Rodrigo Dourado, que estava, há cerca de dez anos, sem atuar. Ele consegue construir personagens cheios de dualidades, com características marcantes, a partir de um minucioso trabalho corporal e vocal. O ator divide a cena com Rafael Almeida e ambos se revezam nos papéis. Almeida por vezes parece mais enrijecido do que o necessário (impressão que se dissipa no final) e a encenação se beneficiaria se a construção dos personagens estivesse mais afinada.

A direção de João Denys acerta ao investir no minimalismo. As maquiagens são exageradas, reforçando que os personagens são grandes caricaturas, mas o cenário é composto apenas por uma grande mesa, duas cadeiras e manequins que carregam espelhos, uma boa sacada para mostrar a artificialidade daquele universo.

Ligações Perigosas tem sessões aos domingos, 19h, e sexta e sábado, às 20h, até dia 27 deste mês. Os ingressos custam R$ 30 e R$ 15 (meia). Informações: 3355-3320.

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