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Sérgio Mamberti leva 'Visitando o Sr. Green' ao Teatro RioMar'

Ator divide a cena com Ricardo Gelli em peça que fala sobre alteridade

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 05/04/2019 às 19:28
Alê Catan/Divulgação
Ator divide a cena com Ricardo Gelli em peça que fala sobre alteridade - FOTO: Alê Catan/Divulgação
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Decidido a voltar aos palcos após 12 anos, período em que atuou no extinto Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti buscava um grande texto. Em uma confluência de encontros, foi convidado para montar a comédia dramática Visitando o Sr. Green, do norte-americano Jeff Baron, que havia ganho uma versão aclamada no Brasil, no início dos anos 2000, com Paulo Autran (falecido em 2007) e Cassio Scapin. Ao lado de Ricardo Gelli, o ator apresenta o trabalho sábado (6), às 21h, e domingo (7), às 19h, no Teatro RioMar.

“Estava sedento para voltar aos palcos, afinal de contas foi onde passei a vida. Vou fazer 80 anos e, desses, 63 foram em cena. Adorei o texto, que é de primeiríssima qualidade, e coloquei como missão comprar os direitos. Na época, estava conversando com Cassio Scapin para fazermos algo em comemoração aos 20 anos do Castelo Rá-Tim-Bum. Não conseguimos, mas perguntei se ele queria dirigir a peça, até porque ele tinha participado da primeira versão. Ele topou e fomos atrás do outro ator. Eu já sabia que queria trabalhar com Gelli”, lembra Mamberti.

Apesar de testar outros atores, ele tinha convicção de que Gelli era a pessoa certa para o papel. A sintonia entre os artistas seria essencial porque toda a ação se passa no apartamento do Sr. Green e os atores praticamente não saem de cena durante toda a montagem.

Na peça, há quatro anos em cartaz, Mamberti interpreta o personagem-título, um recluso judeu ortodoxo, enquanto Ricardo Gelli assume o papel do jovem executivo Ross Gardner. Com vivências tão distintas, eles têm suas trajetórias entrelaçadas após um incidente de trânsito no qual o idoso quase foi atropelado por Ross, que é condenado a prestar serviço comunitário junto à vítima, uma vez por semana, pelos próximos seis meses.

A convivência forçada entre os dois cria uma série de atritos, inclusive pela resistência do Sr. Green em se abrir para as pessoas (ele perdeu a esposa há pouco tempo). A partir desses confrontos, eles enxergam as contradições do outro, assim como suas próprias, e também pontos em comum.

O choque de gerações e de convicções abre espaço para que a peça provoque reflexões sobre intolerância e a necessidade de exercer a empatia.

“A peça tem o magnetismo de ser capaz de se comunicar com qualquer público. Fizemos o circuito dos teatros da Prefeitura de São Paulo e apresentamos em regiões bem periféricas, onde a forma de se encarar a obra de arte é diferente daquela classe média dos Jardins. A gente leva um espetáculo desse, com o cunho humanista, e é impressionante ver que da mesma maneira que vai atingir a senhora de classe alta, atinge o adolescente da periferia. É uma peça, acima de tudo, humana. Todo mundo sabe o que é lidar com o preconceito, ou sendo vítima ou vilão”, enfatiza Ricardo Gelli.

Sergio Mamberti reforça ainda que, apesar da religião não ser o tema da peça, aspectos da cultura judaica são enfatizados. Ele, inclusive, é familiarizado com os costumes, já que sua esposa era judia. “Me inspirei muito no meu sogro para compor o personagem”, brinca.

COMEMORAÇÃO

No dia 22 deste mês, Sérgio Mamberti completa 80 anos “a todo vapor”, como ressalta. Com Visitando o Sr. Green, participará, em julho, do Festival Internacional de Teatro Tchekhov, em Moscou. O convite surgiu após o diretor do evento, Valery Shadrin, assistir à montagem em São Paulo e se encantar com a força das atuações da dupla de atores.

Entre os projetos comemorativos de sua trajetória, uma das mais importantes das artes cênicas do Brasil, está previsto o lançamento de um livro de memórias. Além da carreira, a obra também abordará sua vida pessoal e deve ser lançada entre o final deste ano ou o início de 2020.

Mamberti tem ainda conversado com o Itaú Cultural para planejar uma ocupação no espaço, além de estar animado para expor seus trabalhos nas artes plásticas, como colagens, na galeria de uma amiga. Com uma empolgação invejável, ele defende a importância da arte e a resistência diante do desmonte da cultura.

“A cultura não é partidária. Ela fala do ser humano, não pode estar submetida a determinadas regras, dogmas, para falar com todos. Uma das coisas mais importantes é que haja a diversidade de opiniões”, ressalta.

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