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FIT Rio Preto 2019: peças tensionam questões do contemporâneo

Trabalhos apresentados no festival evidenciam complexidade das relações humanas

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 11/07/2019 às 17:43
Análise
Ricardo Boni/Divulgação
Trabalhos apresentados no festival evidenciam complexidade das relações humanas - FOTO: Ricardo Boni/Divulgação
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O Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, promovido pela prefeitura da cidade e pelo Sesc São Paulo, que segue até o dia 13 de julho, privilegiou em sua grade trabalhos de origens e temáticas diversas, mas que, enquanto conjunto, ajudam a tensionar questões do contemporâneo e a provocar a construção de uma alteridade real. Múltiplas e complexas, as vivências levadas ao palco reivindicam o direito de existir e resistir a partir de seus termos.

Do coletivo mexicano Carne 35, Por Favor Cierra La Puerta, Gracias, é ambientado no quintal de uma casa, com o público posicionado em uma arquibancada. Um grupo de amigos reúne-se para uma noite regada a cervejas e memórias, atravessadas por suas dores, alegrias e projeções. As conversas são atravessadas pela questão do pertencimento e do afastamento com Juárez, cidade onde vivem e com a qual têm uma conflituosa relação, afetiva e política.

A impactante Hearing, do Mehr Theatre Group (Irã), acompanha Neda e Samaneh, duas jovens estudantes que são interrogadas após a denúncia de que uma delas teria recebido um rapaz em seu quarto. A acusação é baseada no testemunho de Samaneh, que diz ter escutado os dois. Aos poucos, a situação se mostra completa e é permeada pelo questionamento do que, afinal, seria a verdade. As atrizes, excelentes, defendem o texto com vigor em todas as suas nuances. Amir Reza Koohestani, diretor e dramaturgo do trabalho, acerta também no uso do audiovisual, que não cai no lugar comum de simples recurso estético, e aprofunda a provocação sobre o real, criando um jogo cênico complexo e bem executado.

REALIDADE E UTOPIA

As marcas do racismo estrutural no Brasil, no passado e no presente, são trabalhadas em Buraquinhos ou O Vento É Inimigo do Picumã, da Carcaças de Poéticas Negras (SP), de forma poética e incisiva. Na obra, um menino negro sai para comprar pão quando é abordado e perseguido por policiais. Em sua jornada pela sobrevivência, atravessa continentes, toca o céu, se esconde em lápides, enquanto luta para voltar para casa, encontrar a mãe e finalmente tomar o café da manhã.

Em cena, Ailton Barros, Clayton Nascimento e Jhonny Salaberg, que também é autor do texto, promovem um tour de force que denuncia o extermínio da população negra e também tenta oferecer alguma esperança como forma de resistência e utopia. Os atores contam ainda quantos negros estavam na plateia. Poucos, constatam, e terminaram a sessão, ovacionados, reforçando a importância das minorias ocuparem espaços na sociedade e na arte.

* O jornalista viajou à convite do FIT Rio Preto

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