Exposição

José Barbosa expõe 40 anos de arte

Artistas inaugura exposição no Maison do Bonfim com Olinda em primeiro plano

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 06/11/2013 às 20:13
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    Se pintores como Paul Gauguin ajudaram a criar um arsenal imagético de exotismo sobre o Oriente, com suas mulheres nuas, polinésias, de cores quentes como suas formas, José Barbosa tem, noutra latitude, ajudado a construir uma imagética de Olinda, essa pequena Lisboa tropical onde inferno e paraíso carnavalizam-se. “Já morei em diversas cidades, vários lugares”, diz ele, informando que nunca deixou de localizar seu discurso pictórico na velha Marim.
    “Nasci na estrada do Bonsucesso, ao lado do Homem da Meia-Noite. Tudo isso é muito forte, fica na gente”, diz o olindense que exibe, de forma mais ou menos sistemática, cerca de 40 anos de sua arte na exposição que abre hoje no restaurante-galeria Maison do Bonfim – não por acaso, localizado numa das principais artérias da cidade-musa.
    Entre entalhes, pinturas e esculturas, são mais de duas dezenas de objetos. Em todas, uma janela sobre Olinda. Sim, José Barbosa abre a janela sobre a senhora cidade, de ancas longas, armadas em ladeiras de sensualidade centenária. Mas não facilmente a revela. Ao contrário, o artista iconiza Olinda pelas raias dos arquétipos, no caminho da mitologia, na tessitura do mistério.
    Mestre de sua geração, seu contemporâneo Francisco Brennand escreveu um ensaio, há poucos anos, tentando situar a matemática do mistério na obra de José Barbosa: “Em abril de 1951, Salvador Dalí lançou seu livro Cinquenta segredos mágicos para pintar, indicado com uma tabela de diferentes notas de 0 a 20 com os itens: ofício, inspiração, cor, desenho, gênio, composição, originalidade, mistério e autenticidade, para qualificar grandes artistas de Da Vinci a Mondrian. No capítulo mistério – um aspecto pouco comum na arte brasileira – Dalí só dedica nota máxima a Leonardo da Vinci, a Rafael e a Vermeer de Delft, conferindo a Picasso nota 2 e a Mondrian, nota 0. Sem nenhum escrúpulo, atribuo a José Barbosa, com seu notável sentido de mistério, a mesma nota 20”.
    A luz de Olinda em Zé Barbosa nunca é orgiasticamente tropical, vertical ao ponto de pintar o chão com a sombra rendada dos cajazeiros e cajueiros de seus quintais. “As telas de José Barbosa tem uma luz sombria e difusa intensamente pessoal, a ponto de, às vezes, causar um certo temor, como se algo catastrófico se prenunciasse. Isso foi observado num quadro onde um Zepellin, em forma de peixe, sobrevoa o Pão de Açúcar no Rio de Janeiro: uma cena de cartão postal transformada numa tragédia iminente”, discorre, no mesmo texto, Brennand.
    Com uma certa ironia, uma ironia com algo de sombria, usando paletas de cores além da original, Barbosa gosta também de revisitar as paisagens de Eckout. É o caso da tela Olinda vista da Sé, dos anos 1980.
    Entre os ícones olindenses de Barbosa, estão os constantes peixes estáticos voadores, saltados de seus oceanos para o céu da cidade; uma cidade habitada por mulheres em surubas com ar de sagrado sugerindo o calor dos interiores do casario olindense. Quadros protegidos/expostos por anjos e querubins sexualizados em funções heráldicas, segurando bandeiras e mapas cartográficos.
    José Barbosa morou muitos anos no Rio de Janeiro. Conheceu, conviveu com e ajudou a vender as obras de gente como Lygia Clark e Ivald Granato, nomes em início de carreira que faziam menos sucesso comercial nas galerias do Rio que o pernambucano Barbosa. Mesmo lá, Barbosa não abandonava sua geografia pictórica. Olinda, pode se ver, mais uma vez, a partir de hoje, é sua pátria criativa.
Pintura e entalhes de José Barbosa, abertura hoje, no Maison do Bonfim . Rua do Bonfim, às 19h30. Atelier. Rua Luis de Carvalho, 1.030, Bultrins, Olinda. Telefones: 3429-3415 / 8816-8547

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