Políticas culturais

O poliédrico Félix Farfan

Artista entrega cargo de gestor da Coordenadoria de Artes Plástica da Secult-PE, onde sua atuação foi sempre polêmica

Bárbara Buril
Bárbara Buril
Publicado em 01/02/2014 às 7:00
Michelle Souza / JC Imagem
Artista entrega cargo de gestor da Coordenadoria de Artes Plástica da Secult-PE, onde sua atuação foi sempre polêmica - FOTO: Michelle Souza / JC Imagem
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Félix Farfan é uma pessoa poliédrica. Por trás de uma face, sempre há outras, escapáveis à primeira vista. “Artista plástico”, “gestor cultural”, “homem de Pedro Mendes”, “peessedebista”, “amigo da primeira-dama”, “político”, “amigo pessoal de Chico Science”. Cada um, incluindo ele mesmo, que lhe dê o rótulo que merece. Mas um aspecto é unificador: a polêmica que o circunda. Hoje, Farfan entrega o cargo de gestor da Coordenadoria de Artes Plásticas da Secretaria de Cultura do Estado, que ocupou por sete anos, à sua assessora: a artista Luciana Padilha, seu braço-direito por seis anos. 

A decisão veio do atual secretário de Cultura de Pernambuco, Marcelo Canuto, que resolveu deslocá-lo para a Diretoria de Projetos Especiais da Secult-PE, a fim de que cuidasse de duas exposições de grande porte, ainda não reveladas. Como as atuais tarefas serão tão ou mais importantes quanto as que tinha nos últimos sete anos, a pergunta é se elas serão cumpridas, já que os principais projetos da coordenadoria não foram concretizados na sua gestão, caso do 48º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, por exemplo. Quando se fala, aliás, da sua face como “gestor cultural”, chovem críticas a Félix Farfan.

Confira trechos da entrevista com Farfan:

JC - Félix Farfan, quais foram os principais projetos da Coordenadora de Artes Plásticas da Fundarpe nos anos em que você foi gestor?

FÉLIX FARFAN - Fizemos o 47º Salão de Artes Plásticas. A média de um governo de quatro anos é realizar de um a dois salões. Não se consegue fazer mais por questões financeiras, porque não tem tanto dinheiro quando se pensa. 

JC - Apenas o salão?

FARFAN - Não, não foi só o salão. Nós fizemos várias exposições de artistas. Tinha uma série de festivais para os quais levamos artistas daqui para expor ou dar oficina. E também convidávamos os artistas de lá para expôr e dar oficina. 

JC - Você poderia citar o nome de algum desses festivais?

FARFAN - Agorinha eu não me lembro. São tantos! Mas eu me lembro do de Goiana, em que a gente fez uma exposição de Dantas Suassuna e expôs um artista de lá, de que não me lembro o nome. Um grafiteiro chamado André também deu uma oficina de grafite. Você não tem ideia da força que o grafite tem. Os grafiteiros são os que mais cobram. 

JC - E aqui, no Recife, quais foram as exposições feitas pela coordenadoria?

FARFAN - A primeira grande exposição foi de Derlon e Samico, no 47º Salão. Contemplamos um menino novo que estava chegando, que foi descoberto na gestão da gente. Modéstia à parte, fui eu que peguei Derlon e coloquei ele na moda. Não tenho o menor grilo de dizer que eu ajudei Derlon. 

JC - Mais recentemente, quais foram as mostras da coordenadoria?

FARFAN - A mais recente aconteceu no Museu de Arte Contemporânea (MAC), Macunaíma Colorau. A gente aproveitou que a exposição tinha sido aprovada pela Funcultura, no valor de R$ 140 mil, e colocamos mais uns R$ 200 mil. O MAC nunca foi tão visitado como nessa época. Foi bem bacana.

JC - Por que o 48º Salão de Artes Plásticas não foi concluído, com a exposição dos artistas que ganharam a bolsa?

FARFAN - Porque faltou dinheiro. A crise econômica mundial afetou tudo.

JC - Não chegou a defender a realização do evento com o então secretário de cultura da época, Fernando Duarte?

FARFAN - Tentei conversar com ele e sensibilizá-lo. Afinal, ele não se diz artista plástico? Quando ele foi para lá, fiquei todo cheio de esperança de que iria acontecer alguma coisa, mas não sei quais eram as prioridades dele. 

JC - Você acha que esmoreceu, como gestor, diante das dificuldades?

FARFAN - Acho que sim, mas a crise financeira realmente abateu. Teve uma diminuição grande de dinheiro para os governos. Tem uma crise aí que os artistas não notam, só quem lê mais, quem tem mais consciência. O SUS agora teve um corte absurdo de 25 a 30%.

JC - Não acha que é uma questão de vontade política?

FARFAN - Mas também tem as prioridades.

JC - Cultura não é uma prioridade?

FARFAN - É prioridade, mas, entre saúde, habitação, segurança e cultura, você tem que dar uma atenção maior a esses outros. Sem educação e saúde, não dá para ter cultura. Ninguém vai ficar indo olhar exposição, se não tiver onde morar.

JC - Por que você decidiu ser gestor?

FARFAN - Porque eu fui convidado, já que é um cargo comissionado. Eu era ligado ao Dr. Arraes (ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes). Os artistas que trabalharam na campanha foram chamados. Isso acontece em qualquer lugar do planeta. As pessoas que trabalham na eleição são chamadas para ocupar o cargo público. Nada mais justo. São cargos de  confiança. Eles escolhem as pessoas que eles sabem que não vão fazer uma cagada, para não deixarem o governo em maus lençóis.

JC - Na sua concepção, como o Estado poderia ajudar as artes plásticas, de forma ideal?

FARFAN - Eu acho que é melhorar os editais e, principalmente, cada coordenadoria ter um valor X por ano, porque aí você sabe o que tem para usar. Quem tem essa caixinha melhor é o pessoal de cinema, porque eles brigaram e mereceram. Morro de inveja de ser cineasta, sabia? Eu adoro cinema.

JC - Você acha que os artistas são politizados?

FARFAN - Acho que não. Eles brigam muito entre eles. Me cansei. O que precisa é ter dinheiro e que esse dinheiro seja bem distribuído, com consciência, sabe?

JC - Alguns artistas reclamam de falta de diálogo da coordenadoria com a classe artística. Concorda?

FARFAN - Não, em hora nenhuma. Marcamos varias vezes reuniões setoriais e muitas não foram. Devemos ter feito umas 18. Em três delas, apareceu uma media de oito, 10, 12 pessoas. Para o universo que temos de cinco mil artistas, você há de convir que esse não é  um montante. E eles ainda se digladiavam dentro dos interesses. A classe do pessoal de musica é muito mais unida. A de cinema nem se fala. 

JC -  Muitas pessoas da Secult falaram que também não viam assiduidade sua na sede do órgão. O trabalho era feito em casa?

FARFAN - Não existe mais esse negócio de bater ponto. Necessariamente, como coordenador, você não tem que ficar lá o tempo inteiro. Tem épocas em que eu chegava lá de oito horas da manhã e ficava até sete horas da tarde. Mas tem época em que você tem que resolver coisas fora. Eu sou coordenador de artes visuais no Estado todo. Tenho que rodar.

JC - Qual será o principal desafio de Luciana Padilha, na Coordenadoria de Artes Plásticas, nesse ano?

FARFAN - Esse ano eleitoral vai ser muito rápido. Temos Copa do Mundo, São Joao e eleição.  O grande desafio seráencerrar o salão fazendo super bacana. A ideia é que a gente deixe o edital pro próximo que vier. Mas o salão não dá mais pra ser anual. Tem que bienal. Dá muito trabalho, é muito grande, é um problema.

Confira abaixo depoimentos da classe artística sobre a gestão de Félix Farfan:

Moacir dos Anjos, curador e crítico de arte

"Creio que há uma série grande de críticas que podem ser feitas à gestão  das artes visuais no Governo Estadual nos últimos oito anos. Como são de naturezas distintas, agrupo-as em dois principais grupos.

Por um lado, foi uma gestão comprovadamente incapaz de levar adiante, com o mínimo de eficiência esperada, as próprias ações planejadas. Um dos exemplos mais claros disso foi a sucessão de adiamentos ou cancelamentos das ações relacionadas ao Salão de Artes de Pernambuco, frustrando expectativas e desrespeitando cláusulas de editais com artistas, críticos e o próprio público. O evento é hoje sinônimo de descrédito no meio das artes visuais do país. Outro exemplo evidente foi a sucessão de adiamentos da data de abertura do novo espaço que seria ao menos parcialmente dedicado às artes visuais, na antiga Estação Central. Inicialmente programado para inaugurar no primeiro semestre de 2011, o espaço continua fechado. Aliás, não existe nenhum espaço em Pernambuco (seja no âmbito do governo estadual seja no âmbito da administração municipal) capaz de abrigar uma mostra de grande porte.

Por outro lado, é uma gestão que, após oito anos, não foi capaz de instituir nada de novo e de permanente no setor das artes visuais do Estado. O segmento das artes visuais em Pernambuco está ainda à espera, se não for tarde demais para reverter o atraso, por ações articuladas que façam jus à grande tradição que existe no Estado nesse campo e ao grande reconhecimento que seus artistas tiveram no passado e ainda hoje possuem. Mas à medida que o tempo passa, mais e mais difícil é enfrentar essa situação. Espero, assim, que o pouco tempo que resta ao atual Governo e a nova gestão na Coordenadoria de Artes Visuais da Fundarpe seja voltados para sinalizar, de modo enérgico, o reconhecimento do tamanho do problema posto e a disposição para ao menos criar os mecanismos institucionais necessários a um início de mudança"

Bruno Vilela, artista plástico

"A gestão de Felix Farfan foi uma tragédia para as artes plásticas em Pernambuco e isso é unânime. Somos mal falados em todo o Brasil por causa do decadente Salão de Artes Plásticas. Mas o problema maior é o modo como Félix Farfan chegou a ocupar esse posto,  um cargo de confiança dado por alguém que não entende do assunto a um amador. Gestão pública não pode acontecer por indicação, 'brodagem', e, sim, por mérito adquirido e experiência no assunto. 

A falta de profissionalismo em diversas áreas da cultura, a indicação de um amigo pelo outro e o êxodo de grandes profissionais para fora do Estado nos deixaram órfãos. Então qualquer um é chamado para ocupar cargos de tamanha importância. Soma-se a isso o fato de artistas, muitas vezes frustrados por não conseguirem sobreviver profissionalmente de sua arte, buscarem tais cargos para pagar as contas. Como não estão satisfeitos com a rotina burocrática e todo tipo de deficiência do setor público, vão abandonando suas obrigações e, muitas vezes, usando esses espaços para benefício próprio, como para mostrar seus trabalhos pessoais a críticos, curadores e produtores que os procuram para pautas públicas.

É o fenômeno do artista pato: funcionário público relapso, produtor irresponsável, palestrante cansativo, curador equivocado e artista amador. Nem voa, nem nada direito; nem anda, nem canta bonito. Estou certo de que a nova coordenadora, que também é artista, saberá separar o que é profissão e o que é hobby e vai mudar o cenário de forma responsável"

Aslan Cabral, artista plástico

"São muitos os artistas visuais que, como eu, não legitimamos a representação da nossa classe profissional por Félix Farfan. Estive em conferências estaduais, elaboradas pela própria Secult, onde estavam representantes da classe desde Petrolina até Recife, dispostos discutir propostas para a setorial, e todos estavam frustrados porque Farfan não compareceu nem sequer mandou ninguém representando-o".

Rodrigo Braga, artista plástico

"Eu faço uma avaliação negativa, sob o ponto de vista da ausência dele na gestão. Ausência física e sobretudo a ausência de diálogo com a classe artística . As ações foram bem dificultosas, o salão demora sempre muito mais do que deveria e, quando sai, é cheio de falhas estruturais e burocráticas da gestão. Mas o principalmente problema foi a falta de diálogo. 

Torço para que Luciana (Padilha) consiga fazer uma boa ponte entre a expectativa e a gestão pública, que é difícil e cheia de problemas. Tomara que ela tenha força interna, como uma gestora política. Se Farfan continuar la dentro, espero que ela tenha autonomia como gestora, que tenha gerência sobre o cargo que está ocupando. Torço por ela". 

Roberto Traplev, artista plástico

"O salão pernambucano (que até me dá vergonha de abordá-lo) é uma das mais vergonhosas ações do governo do estado e da Fundarpe. Há várias edições ele já não consegue dar conta do seu objetivo e o pior pra mim é constatar que tudo isso é má vontade política, porque não há outra justificativa. É um malabarismo político que não permite o salão funcionar. É má vontade política da Fundarpe e da própria pasta de artes visuais não fazer sua obrigação, que é se esforçar em dialogar com a classe artística.

Então, a meu ver, todos parecem estar muito bem acomodados. A própria classe artística, que permite uma gestão dessa, e o próprio gestor, que a meu ver não faz nada, porque o cargo que ocupa poderia ser transformador, não só pra cidade, mas para o País.

Sabemos que a cidade, os artistas que moram nela têm total potencia para não só poder produzir, mas receber boas mostras de arte contemporanea, fazer um projeto de ação educativa de excelência, reiniciar um programa de formação de público para arte contemporânea, etc, etc"

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