Arte

Ateliês de Olinda em exposição no Museu do Estado

Mostra reúne acervo dos ateliês coletivos que fizeram história na cidade

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 12/05/2016 às 6:11
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Mostra reúne acervo dos ateliês coletivos que fizeram história na cidade - FOTO: Divulgação
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Com o chamado Movimento da Ribeira, Olinda virou uma espécie de centro gravitacional e produtivo de uma certa arte tórrida que borra os limites oficiais do Modernismo no Brasil. "No resto do Brasil, há um tipo de distorção e cegueira de uma produção que acontecia em Pernambuco. No Brasil, houve e há um modernismo de longa duração”, diz Marcelo Campos, professor de História da Arte da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e curador da exposição Ateliês Pernambucanos – 1964-1982, aberta hoje no Museu do Estado de Pernambuco. Sob patrocínio do Santander Cultural, cerca de 200 obras de técnicas e períodos diversos poderão ser vistas. “Essa é uma narrativa ainda não devidamente presente nos livros de história da arte brasileira”, enfatiza.
“A primeira coisa que eu diria é que Pernambuco é um lugar onde os influxos modernistas permanecem. Assim como há uma forte tradição da pintura de paisagem, há o experimentalismo de Paulo Bruscky ou a abstração de Montez Magno. Há uma convivência, no bom sentido, meio irregular, de linguagens distintas, sem a coisa (presente em outras microgeografias artísticas do País) do ‘agora já não se pode isso ou aquilo’”, reforça o curador.


Recolhidas de acervos particulares e instituições, gravuras, objetos, documentos, óleos e acrílicas dão conta do metabolismo criativo que se instalou nas artes visuais em Olinda, desde que João Câmara, José Barbosa e outros nomes deram origem ao grande movimento de ateliês de criação, se não rigorosamente coletiva, coletivista, em diversos pontos da cidade histórica.


Ao se mudar para a cidade e assumir a Secretaria de Cultura de Olinda, em 1964, o artista gaúcho Adão Pinheiro começava, sem desconfiar, a escrever um capítulo – ainda não devidamente historiografado – da arte moderna brasileira. Sob sua gestão, o antigo mercado de escravos da Ribeira virava entreposto de arte.
Depois do Movimento da Ribeira, as ladeiras viram surgir agrupamentos como o + 10, o Ateliê Coletivo, as galerias Sobrado 7, 3 Galeras, Lautréamont, Senzala e Franz Post, além da Oficina Guaianases, que marcaria a história da gravura brasileira nos anos 1970 com temas de contestação à ditadura militar ou erotizando a desejada liberação sexual. “A gravura pernambucana é de uma qualidade atemporal e contemporânea em absoluto”, pontua.
Apesar do recorte claramente histórico, Ateliês Pernambucanos – 1964-1982 não está montada como se os grupos tivessem se sucedido cronologicamente. Vários artistas atuavam em grupos distintos concomitantemente. “A grandiosidade e a beleza é que essa produção acontecia em torno de grupos”, diz o curador Marcelo Campos, informando que o desenho da mostra faz com que os trabalhos sejam invadidos uns pelos outros. “Na Guaianases, por exemplo, houve uma quantidade quase incontável de artistas, e essa sensação de coletividade é bastante impositiva pra nós”, pontua. Entre vários nomes, destacam-se, na exposição, obras de Adão Pinheiro, João Câmara, Gilvan Samico, Gil Vicente, Luciano Pinheiro, Guita Charifker, Liliane Dardot, José Claudio, Ypiranga Filho, Tereza Costa Rêgo e Raul Córdula.


Crítico e historiador da arte, Córdula pontua a origem mais identificável da modernidade artística de Olinda. “Olinda atraiu os artistas desde a década de 1950, quando (o artista paraibano e abstracionista) Montez Magno para cá se mudou e convidou Adão pinheiro e Anchises Azevedo para dividirem com ele seu ateliê”. Com os antigos moradores se mudando para os bairros novos em direção à orla de Olinda, os artistas passaram a ocupar gulosamente aqueles casarões amplos o bastante para se morar e trabalhar. Tinham, então, aluguéis baratos.
“A exposição Ateliês Pernambucanos segue a tarefa de fazer de um momento, a saber, os anos de 1964 a 1982, uma possibilidade de reflexão, a partir de fatos cotidianos que, hoje, justificam-se como um momento histórico em que artistas, intelectuais, instituições e políticos promoveram encontros, abriram ateliês e galerias, transformaram espaços públicos e privados em lugares onde a arte era produzida e, sobretudo, vivenciada”, discorre o curador.


Como ponto de partida conceitual, o curador lembra que a mostra tem respaldo no empenho de Gilberto Freyre em evidenciar os fatos do cotidiano como parte do que podemos entender como patrimônio. Com o Manifesto Regionalista de Freyre como referencial, um certo olhar para o regional começa a se estruturar, nessa produção pernambucana, como forma de diálogo com o atemporal e universal. “A ideia do regional é uma grande agenda para a arte contemporânea. O que se busca é o diálogo de tradições locais que possam ser colocadas como sensações amplas e globais. Esse regionalismo de Freyre elenca essa ideia de Nordeste”, ele diz, confirmando como essas tensões, sem prazo para sair de pauta, podem ser lidas na produção helicoidal dos ateliês pernambucanos – movimentos relativamente despretensiosos de artistas em busca de espaços, agora melhor contados na história da arte brasileira.


Exposição Ateliês Coletivos 1964 - 1982. Abertura hoje, às 19h, para convidados, no Museu do Estado de Pernambuco, Avenida Rui Barbosa, 960,

 

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