Dona Lindu

Uma dimensão política da fé na obra de Renato Valle

Artista abre mostra com 30 obras em que o cotidiano e a história exibem dimensão tragicamente extraordinária

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 30/05/2017 às 5:00
Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
FOTO: Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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A obra de Renato Valle não poderia inscrever-se na tradição da identidade. Se o discurso identitário é, por natureza, quase sempre estanque, a-histórico, ansioso de hegemonia, as narrativas deste artista visual se alimentam justamente das frestas dinâmicas da realidade. Não cabem naquilo que se propõe a ser cristalizado. Com cerca de 30 obras de técnicas variadas, entre objetos e desenhos de dimensões gigantescas, Valle inaugura, hoje, na Galeria Janete Costa, dentro do Parque Dona Lindu, em Boa Viagem, uma exposição em que, através de sua religiosidade, o corpo quase nunca harmônico da sociedade expõe perversas dimensões políticas.

Religiosidade e Política na Obra de Renato Valle é o nome da mostra. O artista recorre a situações-limite da própria subjetividade, ou da dos que o cercam, para evocar a dimensão da fé nos fatos de espectros amplamente políticos. “Não me interessa essa religiosidade mais metafísica, mas a religiosidade mais humana, e por isso, com mais possibilidades de fraternidade”, ele diz. As peças reunidas de acervos de grandes colecionadores e instituições como o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), produzidas desde 2003, intrigam justamente pela dimensão trágica, tão potencialmente sobrenatural como estranhamente cotidiana.

Diários de Votos e Ex-votos é um dos pontos altos entre as obras. Paciente e diligentemente, Renato pesquisou, nos arquivos virtuais do Ministério da Justiça, as histórias e retratos de centenas de crianças desaparecidas no começo dos anos 2000 para construir o enorme painel composto de cinco mil diminutos desenhos, cinco centímetros quadrados cada um, dos rostos desses símbolos concretos da diáspora infanticida e, num exercício maior de quem vai ao inferno sem medo de enxofre, esboços dos rostos desses algozes. “Uma das histórias era de uma menina de 11 anos, violentada e assassinada pelo ex-namorado da irmã, que assim quis se vingar do fim do relacionamento”, lembra. Se tudo tem plasticidade, Renato Valle ensaia, aqui, os esboços dos rostos dos que podem encarnar a monstruosidade contemporânea. “Temos também a imaginação sobre quem seriam esses algozes”.
“A arte de Renato Valle, desde seu início, é feita de inúmeros desejos de transformação do corpo social no qual o artista está inserido. Nela, sua vontade de potência se evidencia sobretudo no trato da figura humana e dos objetos que lhe são caros, pessoais e espirituais”, diz a curadora Valquíria Farias, no texto de apresentação da mostra.

Bem conduzido pelo também artista Diogo Todé, o projeto expográfico é sereno e pontuado por pausas para que respiremos entre uma obra e outra. Na principal parede da Janete Costa, há apenas três desenhos de grandes dimensões, contornos gigantes aplicados sobre lonas. No meio delas, como exemplo de uma crítica que não dispensa o humor dos paradoxos, uma pequena escultura de parede traz o rosto de Jesus Cristo em resina, com uma fenda por onde podemos injetar moedas e cédulas. O cristo-mealheiro não poderia ser mais direto nas referências às muitas indústrias da fé.

Ainda no andar térreo, mais flagrantes da infância. "MMA BABY" (3,2 m por 2,8 m, 2016) traz duas figuras de bonecos-bebês em duelo. “Não é uma crítica ao esporte, mas uma forma de perceber a cultura da violência na infância”, diz ele, que, mais adiante, no mesmo andar, expõe "Criança Sentada, Sob o Impacto de uma Determinada Programação Televisiva Infantil (2006, cerca de 3 m²): o corpo infantil e a subjetividade que dele se projeta como que deformado pelo que é .

"Canudos, Caneca, Diretas... e o Brasil Não Mais Resiste" (2006, 7,73 m x 2,12 m) traz a junção dos corpos de Cristo, Caneca e Conselheiro no mesmo cadáver. São, portanto, mergulhos em direção harmonicamente opostas: para a realidade histórica ao redor e na própria subjetividade do artista.

CRISTO HUMANIZADO

No segundo momento da mostra, o humor pop de uma outra faceta de Renato Valle nos instiga a pensar num cristo humanizado. Neo-concretistas, pequenas esculturas de Jesus Cristo, alternadas em preto e branco, formam grades. “A grade prende, mas também protege”, diz o artista, lembrando como o elemento nos liga à religião, à política, ao crime. Em coreografias distintas, às vezes conjuntos de corpos que parecem dançar ou flutuar em nado sincronizado, outras figuras de Cristo sugerem a humanização do divino em composições diversas.

Num expediente que encontra ecos em obras como a do carioca Cildo Meireles, o artista pernambucano também flagra a disposição da sociedade de consumo para sacralizar o mundano. Latinhas de Coca-cola aparecem, não por acaso, fossilizadas em pesadas cruzes de resina.

Boa parte do que Renato Valle tem produzido ultimamente vem de residências e projetos em comunidades e projetos de ação social na infância. O painel O Cachorro Morto, por exemplo, surgiu das observações de crianças de um bairro pobre de Jaboatão dos Guararapes durante uma oficina há mais de dez anos.

“Eles viram o cachorro morto durante uma volta e registrei as impressões”, diz ele que, não por acaso, e para evitar que o espaço expositivo permaneça restrito ao costumeiro público de uísque na mão e cheque no bolso, vem recebendo visitas pedagógicas de estudantes diversos há cerca de um mês. “É uma forma de ampliar os públicos e acessos”, diz o artista, para quem o objeto nunca estará apenas na dimensão da coisa. Parece confirmar o antigo preceito de Levi-Strauss – em sociedade, o objeto será sempre índice de seu tempo.

Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
- Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Religiosidade e Política na Obra de Renato Valle. Abertura, hoje, às 19h, na Galeria Janete Costa, Parque Dona Lindu. Av Boa Viagem, s/n.

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