Exposição

A mulher não mais oculta de Ana Hupe

Artista inaugura exposição na Galeria Massangana sobre a trajetória apagada de uma mulher negra no Brasilabuco

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 08/07/2017 às 6:16
Ana Huper / Divulgação
Artista inaugura exposição na Galeria Massangana sobre a trajetória apagada de uma mulher negra no Brasilabuco - FOTO: Ana Huper / Divulgação
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Arcoverde é o município. O ano, 1925. Sem documentos, memórias familiares ou a certeza do ano de seu nascimento, uma certa Maria Francisca da Conceição bate à porta de uma proeminente família desta cidade na fronteira entre o Agreste e o Sertão de Pernambuco em busca de emprego. “Ela nunca mencionou nada de seu passado, se mudou com minha família para o Rio de Janeiro onde trabalhou até morrer”, diz a artista visual Ana Hupe, que foi buscar na trajetória não contada, ou melhor, socialmente invizibilizada desta freyriana quase-parente o ponto de partida da exposição "Muita Memória para um Futuro Só". Selecionada pelo edital de residência artística da Fundação Joaquim Nabuco, a mostra ocupa, a partir de hoje, a Galeria Massangana, às 16h, em Casa Forte.

“A mostra reúne, em meios diversos, elementos bastantes para sugerir uma narrativa que não se sabe ao certo se é integralmente verdade ou se é parte inventada. Articula imagens e textos de forma a justamente borrar os limites entre o que foi supostamente vivido por alguém e o que pode ser ficcional”, diz o curador Moacir dos Anjos, na apresentação da mostra.

“Eu jamais tive a pretensão de querer localizar a personagem exatamente”, diz a artista, vestida também de um certo papel de historiadora e antropóloga. Com sua narrativa dessa mulher sem fala, invizibilizada pelas dinâmicas sociais sempre eficazes em apagar uns tantos para acender outros poucos, ela conta a trajetória não de uma mulher específica, mas de várias mulheres negras apagadas socialmente. Em municípios vizinhos, comunidades quilombolas, reminiscências de casas-grandes e na memória oral de tantas mulheres negras, oficialmente pardas, herdeiras de mulheres sem patrimônio palpável para deixar, Ana Hupe constrói sua narrativa helicoidal. Como contraponto, imigrantes africanas do Recife aparecem como protagonistas de uma negritude afirmativa.

INSTALAÇÕES


A exposição é composta de diversas pequenas instalações – fotos, textos, vídeos, objetos – , pequenos universos narrativos que, com a força do mosaico, dão conta de recuperar o passado identitário dessa mullher-múltiplo. Num canto, estão antigos objetos reunidos de Maria Francisca da Conceição – pentes, santinhos católicos, colares. Objetos que, como diria Levi-Strauss, contam o tempo. Neste caso, através da personagem que é uma sendo várias.


"Muita Memória para um Futuro só", exposição de Ana Hupe. Fundação Joaquim Nabuco, 2187, Casa Forte. Abertura, hoje, às 16h. Até 30 de julho.

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