Exposição

Vacilante ocupa Arte Plural

Um dos mais instigantes da cena contemporânea, coletivo executa uma arte "sem autor"

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 15/01/2018 às 20:07
Divulgação
Um dos mais instigantes da cena contemporânea, coletivo executa uma arte "sem autor" - FOTO: Divulgação
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Membro do hoje cultuado Grupo Fluxus, criado na Alemanha dos anos 1960 como uma genial trincheira contra o galerismo burguês, o italiano Piero Manzoni criou, no início dos anos 1960, uma série de obras batizadas de “Esculturas vivas”: na verdade, pessoas assinadas pelo próprio artista portando certificados de autenticidade que lhes conferiria a certeza de serem obras. Allan Kaprow convocou colaboradores para lhes ajudar a erguer uma enorme escultura de gelo. Mal ficasse pronta, a obra derreteria. As mensagens eram mais ou menos claras: a arte não é eterna, se sustenta em valores circunstanciais.

Formas radicais de ironia contra os sistemas da arte, manifestações do chamado Conceitualismo não suprimiram o individualismo ególatra da arte, não romperam a lógica da autoralidade tão importante para o mercado, foram inclusive canibalizadas pelo próprio mercado, capaz, hoje, de vender até performances (não palpáveis, como qualquer gesto), mas deixaram práticas salutares para a renovação ou ampliação de linguagens. No Recife, um coletivo recente de artistas visuais amplia esse repertório de radicalização na elaboração de obras de arte que não precisam necessariamente de um autor. Hoje, no espaço Anexo da Arte Plural Galeria, o Coletivo Vacilante abre mais uma mostra.

Pintura como suporte predominante, o coletivo de recifenses funde, em telas de tamanhos diversos, técnicas variadas como óleo, acrílica, spray automotivo, abstração e figurativismos para uma obra construída num processo de autocanibalização construtiva.
“O quadro é pintado num coletivo sem planejamento, sem o dever de preservar ou apego ao que o outro pintou, sem o direito de negociar ou conciliar”, diz o também diretor de arte Alexandre Pons, que, há quatro anos, fundou o Vacilante com o também diretor de arte Heitor Pontes, e o redator publicitário Luciano Mattos.

O processo criativo que caracteriza o Vacilante é, além da mostra em si, motivo de um bate papo que os artistas realizam com o público hoje, a partir da 19h, na Arte Plural Galeria (APG). Eles fazem ainda uma retrospectiva dos últimos três anos do grupo, além de mostrar trabalhos novos e futuros. A ação faz parte de uma série de encontros com artistas que a APG vem realizado no segundo andar do prédio da Rua da Moeda, no Recife Antigo, com exposições menos pomposas, mais simples e, por isso, mais práticas e democráticas.

VERBORRAGIA VISUAL

Ao, contudo, questionar a própria autoralidade no sistema de arte, o Vacilante vem, numa aparente contradição, marcando uma assinatura inconfundível. Com a visualidade caoticamente harmoniosa de murais urbanos, hiper e verborragicamente coloridas, as telas são constantemente repintadas, elementos apagados ou refeitos, de forma coletiva. Pintam como tocaria uma banda do mais orgânico rock n roll: como músicos em voragem de grupo para que o resultado seja algo tão coletivo que já não pertenceria a uma individualidade.

Projeto Anexo, com o Coletivo Vacilante + bate-papo com os artistas. Terça-feira, 16 de janeiro, às 19h. Entrada franca. Arte Plural Galeria, Rua da Moeda, 140, Bairro do Recife. Fone: 3424-4431.

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