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Paraíba vai ficar com obras de Abelardo Da Hora

Família do escultor tentou fazer acordo com governo pernambucano. Sem êxito, conseguiu espaço exclusivo na Paraíba

Isabela Veríssimo
Isabela Veríssimo
Publicado em 27/11/2018 às 12:29
Foto: Ricardo B. Labastier/ACERVO JC IMAGEM
Família do escultor tentou fazer acordo com governo pernambucano. Sem êxito, conseguiu espaço exclusivo na Paraíba - FOTO: Foto: Ricardo B. Labastier/ACERVO JC IMAGEM
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Abelardo da Hora (1924 – 2014) é um dos maiores expoentes das artes plásticas de Pernambuco, mas, ainda assim, será o Estado vizinho da Paraíba que irá abrigar sua obra. A transferência do acervo do escultor foi acertada após um acordo entre o Instituto Abelardo da Hora, mantido por sua família, e o governo paraibano, que se comprometeu criar um espaço exclusivo para receber e expor seu legado. Batizado de Memorial Abelardo da Hora, o equipamento está localizado no bairro de Tambaú, em João Pessoa.

"A família constatou que o espaço do Memorial Abelardo da Hora adequava-se a todas as expectativas desejadas, configurando-se como um espaço de qualidade internacional, à altura do homem, da obra e do legado de Abelardo da Hora”, afirmou a família em carta pública. Segundo o documento, a família aguardava, desde 2014, alguma proposta por parte do Governo de Pernambuco e chegaram a procurar “mais uma vez” seus representantes, antes de firmarem o acordo que passa a vigorar, mas, segundo indicam, não receberam condições nos mesmos termos que as propostas pelo Estado vizinho.

O Governo de Pernambuco, por meio da Secretaria de Cultura (Secult-PE) e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), afirma ter enviado uma proposta de parceria, assinada por Manuela Marinho, secretária de Turismo, Esporte e Lazer de Pernambuco (em exercício), Márcia Souto, presidente da Fundarpe, Ricardo Leitão, presidente da Cepe, e Evaldo Costa, secretário de Comunicação Governamental. O documento previa uma catalogação da coleção, doação à Fundarpe sob rígidas condições, definição de um novo local de armazenamento e exposição, sendo o Museu Cais do Sertão uma das opções, relançamento de álbuns de gravuras de Abelardo pela Cepe e um lançamento de livro sobre sua vida e arte pela mesma editora.

Em nota oficial, a Secult-PE e a Fundarpe afirmaram surpresa ao tomar conhecimento de modo casual sobre a transferência do acervo para a Paraíba, alegando ainda nunca ter recebido uma resposta da família sobre sua proposta. “Sempre foi muito claro para o Governo de Pernambuco que o Recife é o melhor lugar para ser mantido o acervo artístico e documental do escultor pernambucano”, diz a nota.

O legado

O artista plástico Paulo Bruscky recorda que as obras do também pernambucano Abelardo Rodrigues tiveram desfecho parecido com o de Abelardo. “A coleção de Rodrigues foi disputada entre Pernambuco e Bahia, mas os soteropolitanos levaram. Lamento muito por saber que outras perdas como essas virão”, afirmou em entrevista ao JC.

Autor do livro Abelardo de Todas as Horas, o primeiro sobre a vida do amigo e artista, Bruscky relatou ter acompanhado toda tentativa de negociação por parte da família e se surpreendeu com “a falta de respeito do Governo do Estado”. “O descaso não vem de agora. A gente perde um artista internacional, com várias obras espalhadas pelo mundo. Abelardo é a história do Recife, de Pernambuco e da resistência. Foi pioneiro em esculturas assimétricas”, relembrou.

O mesmo aconteceu com o acervo do marchand e colecionador pernambucano Marcantônio Vilaça, que não encontrou acolhida em Pernambuco. Para Moacir dos Anjos, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, a repetição da história não deve ser tratada como um caso isolado, mas “como sintoma de uma questão mais ampla e profunda: a incapacidade de gestão estadual sobre a riqueza que os artistas do estado produzem”.

Moacir ressalta que o acervo poderia ser utilizado como objeto de pesquisas pernambucanas, a fim de entender a importância o artista como educador e ativista político, uma vez que “os dois fatores se entrelaçam em suas obras”. “Enquanto a importância da arte não for levada a sério, vamos repetir as mesmas perdas nos próximos anos”, garante o pesquisador. Segundo Moacir, não é só a negociação referente a Abelardo que não caminha. O Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, em Olinda, e o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife, responsabilidades do Governo e da Prefeitura do Recife, respectivamente, se encontram em grave situação de conservação.

A professora de Artes Visuais da Universidade Federal de Pernambuco, Bete Gouveia, resgatou a importância de Abelardo na história da arte. Ela lembra que, em 1946, ele fundou a Sociedade da Arte Moderna de Pernambuco (SAMR) e a dirigiu por quase 10 anos. “Ele tinha uma mentalidade diferente e buscava um trabalho mais livre e moderno, com formas mais abstratas e voltadas à problemas sociais”, detalha Bete sobre o pernambucano que, por muito tempo, se opôs à Escola de Belas Artes de Pernambuco, onde estudou.

“A transferência das obras e de uma história rica em posicionamento é a prova da nossa fragilidade”, define. “São poucos artistas pernambucanos reconhecidos e faz-se necessário entender que é muito mais do que estética. É sobre um homem com muita história para contar dentro da trajetória terrena”, conclui.

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