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Roteirista francês, Michel Fessler, conversa sobre o seu processo criativo

Ele foi convidado do 1º Fórum Pensar a Infância, promovido pelo Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI)

Marina Andrade
Marina Andrade
Publicado em 16/10/2011 às 14:51
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Dois pinguins improvisam uma dança entre as montanhas de gelo, no inverno vazio da Antártida. O objetivo: passar o ovo da mãe para o pai cuidadosamente, pois os pequenos ovos sobrevivem apenas alguns segundos, quando entram em contato com a superfície gelada. Os casais mais jovens e descuidados deixam a sua cria cair e perdem também meses de idas e vindas e de frio. Muito frio. Se você viu esta cena nos cinemas, pode atribuir parte da emoção transmitida ao trabalho de Michel Fessler, roteirista que esteve no Recife para falar sobre o seu processo criativo.

O que poderia parecer um documentário da Discovery Channel, puramente informativo, ilumina-se nas telas e emociona pelo teor dramático. O filme em questão, A marcha dos pinguins (2005), tornou-se um dos documentários mais vistos no mercado americano, mesmo tendo outra nacionalidade: é francês.

Na trama, os pinguins ganham voz e contam a história da sua sobrevivência e procriação. A obra agraciada com um Oscar de melhor documentário, ganha contornos humanos e ares de ficção. O francês Michel Fessler, um dos responsáveis pelo roteiro, ao lado do diretor Luc Jacquet, já participou de 25 obras, mas são os filmes infantis os seus favoritos.

“Primeiro veio o interesse pelo cinema em geral e depois veio o interesse pelo filme para crianças. Sempre me lembro de quando era jovem e tento reproduzir os sentimentos, as emoções que sentia nos trabalhos que eu faço”, analisou o roteirista convidado do 1º Fórum Pensar a Infância, promovido pelo Festival Internacional de Cinema Infantil (FICI), na última terça-feira. Para Michel Fessler, a forma como o roteirista aborda o sexo, a morte e a violência diferencia as obras infantis das demais produções, é preciso ter cautela, cuidado, pois as crianças não estão prontas psicologicamente para ter contato com esses elementos.

“Tento manter a questão da inocência nos meus filmes infantis, elemento que não está presente, necessariamente, nos filmes para adultos. Além disso, não posso esquecer de passar os problemas enfrentados na vida e a realidade para as crianças”, afirmou Michel, que assina também os roteiros dos filmes O menino que queria ser urso e T´choupi. Como roteirista de mais de 20 filmes, Michel só trabalha com adaptações e acredita que se um livro é bem escrito, tem uma boa história e passa sentimento aos leitores, pode render um ótimo filme.

“Não é tanto a narrativa em si, é a emoção que dita o que eu vou fazer. Se algo me toca, me emociona eu penso que vai emocionar as outras pessoas. É assim que as coisas funcionam comigo. Há também alguns temas universais que me interessam, a questão da humilhação, por exemplo. As pessoas se tocam quando veem alguém humilhado, porque na vida há muito mais humilhados do que não humilhados”, completou sorrindo. Um dos objetivos de Michel é acabar as suas histórias desejando bons ares aos espectadores. “Uma história que termina bem, deseja boa sorte ao público”.

Francês, o roteirista não é um entusiasta do cinema produzido no seu país atualmente. Se na década de 1960, Jean-Luc Godard revolucionava a sétima arte com trabalhos experimentais, na primeira década dos anos 2000, Michel classifica os filmes franceses como clássico e conservador. “Na época do cinema experimental, a própria sociedade também estava fazendo essa busca. O cinema acaba se tornando um reflexo, um espelho da sociedade. Ao mesmo tempo, se vê claramente que os jovens de hoje vivem de uma forma muito mais clássica e conservadora do que nos anos 60. Então é claro que o cinema acaba sendo mais conservador”.

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