DOCUMENTÁRIO

O céu sobre os ombros: entre a ficção e a verdade

O filme de Sérgio Borges estreia na Expectativa 2012/Retrospectiva 2011 do Cinema da Fundação

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 13/12/2011 às 6:00
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A principal preocupação do cinema contemporâneo brasileiro é a de observar como se dá a relação entre realidade e documentário. O céu sobre os ombros, de Sérgio Borges, é uma obra em que essa obsessão está presente durante toda a sua narrativa e que permanece na cabeça do espectador depois da exibição. O filme passa nesta terça (13/12), na Mostra Expectativa 2012/Retrospectiva 2011, às 20h30, com debate com o diretor.

O documentário se organiza em torno de três personagens, figuras tão improváveis e ímpares que por si só despertariam dúvidas em qualquer um. A partir de cenas e conversas aparentemente espontâneas, Murari Krishna, Edjucu “Lwei” Moio e Everlyn Barbi contam a sua própria história. O primeiro, como evidencia o nome, faz parte do Movimento Hare Krishna, é atendente de telemarketing, membro da torcida organizada do Atlético Mineiro Galoucura e skatista.

Lwei, por sua vez, é um escritor marginal marcado por digressões filosóficas. Sem nunca ter publicado nenhum livro, ele vive em permanente angústia, lidando com a saudade que sente do filho que, também por motivos emocionais, não consegue ir visitar.

Em um pólo oposto, está Everlyn, talvez a personagem mais impactante do filme. Com um mestrado focado no campo da sexualidade, a transexual ministra aulas na área e, ao mesmo tempo, se prostitui, como se o ato de vender o seu corpo fosse uma extensão da sua consciência sexual.

Os personagens estão, em geral, presentes por meio de conversas com terceiros ou cenas silenciosas, tão perfeitas que é impossível não questionar se aquilo não se trata de uma completa encenação de uma vida. Sem saber, o espectador está procurando responder a pergunta: essas pessoas, tão impactantes que parecem ficcionais, de fato existem ou são inventadas?

O céu sobre os ombros poderia até perder parte do seu apelo se essa pergunta fosse realmente respondida, mas só para quem quisesse tomar literalmente o sentido de “verdade” que um documentário pode ter. São histórias reais um pouco ficcionalizadas ou ficções um pouco reais? O grande mérito do filme não é lançar essa pergunta, mas sim torná-la, pelo próprio impacto da narrativa, irrelevante. De que importa o quanto de Murari, Everlyn e Lwei existem? De todos os jeitos, a vida de cada um deles continua sendo complexa e bela.

Leia a matéria completa no JC desta terça-feira (13/12)

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