CRÍTICA

Sangue azul é trama de deuses e pansexualismo

Filme estreia nesta quinta-feira (4/6) em circuito nacional

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 03/06/2015 às 6:25
Rodrigo Valença/Divulgação
Filme estreia nesta quinta-feira (4/6) em circuito nacional - FOTO: Rodrigo Valença/Divulgação
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Herança mitológica, pansexualismo e uma ilha vulcânica perdida na imensidão do Oceano Atlântico. Estes elementos são alguns dos componentes de Sangue azul, o ardente segundo longa-metragem de ficção do pernambucano Lírio Ferreira, que estreia nesta quinta-feira (4/6), no Cinema da Fundação e no Kinoplex Boa Viagem. Assim como Árido movie, de 2006, novamente assistimos à volta de um filho pródigo. A diferença é que, enquanto Jonas (Guilherme Weber) retornava ao Sertão para o enterro do pai, o homem-bala Zolah (Daniel Oliveira) volta à ilha onde nasceu para se conectar com um destino que nem os deuses terão poder para interferir.

Sob as bênçãos de Eros e Dioniso, Sangue azul é um manifesto poético-sexual, como se Lírio buscasse apreender por meio de sons e imagens a excitação da carne, do sal e do sol. Mais até do que a sua trama, melíflua e cíclica como a maré, o filme parece se apoiar em sensações - do torpor à excitação física, os corpos estão sempre em movimento. Zolah é o maior exemplo. Toda noite ele é expelido por um canhão, que metaforicamente cai sem norte em algum lugar da ilha. 

Seja antes de uma performance, convidado por um olhar furtivo, quase atacado na calada da noite ou dentro do mar, com a irmã Raquel (Caroline Abras), ele é uma força da natureza que une o mundo em sua função criadora. Lírio até que se esforça para dar ao filme uma feição narrativa, mas o turbilhão de sentimentos que ataca os personagens parece sabotar sua intenção. Isso, sem dúvida, deixa os espectadores um tanto náufragos, perdidos no meio do mar, sentido a falta de um leme que faça a trama ganhar fluência e um caminho conhecido.

Mas quantos filmes não são governados por forças que não se sujeitam às regras e as boas maneiras? Por isso, Sangue azul é governado mais pelos sentidos do que pela razão. O certo é que o filme se enriquece cada vez que encontra uma superfície de atrito, seja ela cinematográfica, filosófica ou geográfica. Vejamos, por exemplo, o insondável Khaleb (Paulo Cesar Pereio), que mesmeriza os ilhéus com suas palavras, os espectadores com sua paixão pelo motoqueiro de O selvagem (Marlon Brando) e, sem explicação, desaparece, se integrando à memória da ilha.

Símbolo de pai ausente/presente, tanto em Árido movie como em Sangue azul, Pereio parece um espectro dentro da noite, como um Rei Lear que assombra os sonhos de Zolah. Não é por acaso que o circo que ele comanda e que traz Zolah de volta à ilha tenha o nome de Netuno. Na antiguidade romana, Netuno é o rei do mar, senhor das tempestades e das tormentas. Afinal, é uma história de amor proibida que faz com os ventos da ilha açoitem as noites regradas ao balanço do sexo e da música.

Interessante, ainda, são as conexões e aproximações que Lírio faz da ilha atlântica - ou Fernando de Noronha, como queiram - com o mar do Caribe, especialmente a Cuba. Ainda em alto-mar, com Zolah mareado, a voz da cantora cubana Marina de la Riva soa quase como um sussurro em contraponto com o som das ondas. O furacão Teorema (a também cubana Laura Ramos), a rumbeira do Circo Netuno, até então a namorada oficial de Zolah, terá sua voluptuosa figura ferida, numa quase suicida tentativa de controlar a natureza.

Filme aberto e em processo, Sangue azul é um mergulho nas profundezas abissais das paixões humanas, como se coubesse ao cinema a primazia de nos transportar ao paraíso terrestre habitado pelo primeiro homem e pela primeira mulher.

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