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Jura Capela filma A Serpente com Matheus Nachtergaele e Lucélia Santos

Diretor pernambucano conclui as filmagens da adaptação da última tragédia escrita por Nelson Rodrigues

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 15/03/2016 às 5:17
Xande Pires/Divulgação
Diretor pernambucano conclui as filmagens da adaptação da última tragédia escrita por Nelson Rodrigues - FOTO: Xande Pires/Divulgação
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RIO DE JANEIRO – Pouco antes de entrar no set para as filmagens, o paulista Matheus Nachtergaele fez uma confidência ao diretor pernambucano Jura Capela: quando menino, ao ver na TV aquela mulher magnética, baixinha como ele, de um olhar ligeiramente estrábico como o seu, pensou que poderia ser um ator – ou melhor, um ator com a grandeza daquela atriz.


“Fui me decidindo a ser ator muito por ver Lucélia Santos, sua entrega, carisma e sinceridade como cidadã pela vida afora. Ainda menor de idade, pedia que meu pai me levasse pra ver seus filmes”, diz ele. Por causa da atriz, ele abriu outra porta sem retorno. “Por ela e por causa dela, é que comecei a ver cinema nacional e conheci a obra de Nelson Rodrigues”, diz Matheus que, só agora, sob a direção de Jura, uniu esses dois pontos fundamentais de seu metabolismo como artista.

Sobre um texto de Nelson Rodrigues, e contracenando quase que quadro a quadro com Lucélia, Matheus tem mais um título para incluir na lista de longas-metragens como protagonista. Cinema intencionalmente teatral, Lucélia e Matheus deram vértices ao triângulo quase incestuoso de  A Serpente, a última tragédia carioca de Nelson, escrita em 1978, em torno de duas irmãs acariciando o desejo pelo mesmo homem como quem afaga uma bolha de sabão com agulha.

Com as filmagens concluídas entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais depois do Carnaval, há uma semana o diretor entrou na ilha de edição com Rodrigo Lima para montar o filme. “Acho que no começo do próximo ano podemos começar a correr os festivais”, diz Jura.

Curiosamente, é a primeira vez que Nelson Rodrigues, carioca de vida e pernambucano de nascimento, tem uma de suas peças levadas à tela por um diretor de Pernambuco. “A história de duas irmãs vinculadas ao mesmo homem atravessa a obra de Nelson Rodrigues desde sempre. Quando li A Serpente, fiquei fascinado ao me deparar com a admirável capacidade de síntese do autor e pela sequência de acontecimentos. É uma peça enxuta, com quatro protagonistas. A sequência dos acontecimentos me fez desconfiar que Nelson poderia ser um grande montador de cinema. Achei tudo muito ágil, simples e forte. Vi que poderia fazer um filme de baixo custo sem perder a qualidade de texto, atuação e fotografia. O conjunto complexo e simples me encantou”, resume Jura.

Matheus tinha voltado pro Rio depois de filmar Big Jato, de Claudio Assis, no interior de Pernambuco, quando encontrou Jura, no ano passado. Já estava bem impressionado pela teatralidade de Jardim Atlântico, o primeiro longa do diretor, quando lhe perguntou o que planejava. Quando soube do projeto de A Serpente, se convidou. “Respondi que seria uma honra tê-lo no filme. E desde então Matheus tornou-se um grande parceiro no filme, como a produtora Elaine Soares e a cenógrafa Karen Araújo. Nos encontros, ficávamos lendo e relendo a peça, falando de Nelson e dos personagens. Tínhamos em mente chamar duas atrizes e Matheus sempre dizia que deveríamos achar profissionais que tivessem um quê de Lucélia Santos”.

Outras atrizes foram até convidadas, quando Matheus enxergou o óbvio por trás da fresta. “Por que não convidamos a própria Lucélia?”, perguntou. Na opinião do próprio Nelson, não havia atriz mais “rodriguiana” que ela. Para o dramaturgo, mais que uma atriz, Lucélia Santos encarnava “uma força da natureza”.
“O Nelson iria gostar disso”, disse ela, sobre o roteiro lido. “Fazer a peça com ela, filmada por Jura, estar com ela assim, na intimidade profana do ritual das cenas, foi realmente um sonho concretizado! Eu amo a Lucélia Santos”, declara-se Nachtergaele.

Com pouco menos de duas semanas de filmagens, o filme ganhou corpo na fotografia em preto e branco de Pablo Baião. Em vez de cenários realistas, urbanos, a narrativa teve ambiência em Ipiabas, distrito de Barra do Piraí, no Rio, e em Bento Gonçalves, um distrito destroçado pela lama tóxica da usina de Mariana (MG). “Lucélia chorou muito ao filmar ali”, diz o diretor, certo de que as locações ajudariam na urdidura dramaticamente teatral.

“Conversando com minha conterrânea Karen Araujo (diretora de arte), chegamos à conclusão de que qualquer situação urbana nos levaria a um lugar comum do cinema e da televisão, que por sinal fizeram muito bem Nelson. Então foi necessário tirar A Serpente da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, tão típica de Nelson, e levá-la para uma paisagem quase deserta”, diz o diretor.

“Jura é um olhar tropical para a dor do amor. Muito bonito ele filmar a peça. O lado teatral do cinema dele, a escolha de quadros de cinema pra fazer um texto de teatro... Em tudo procura uma forma de coragem rara, elegante e visceral”, responde Matheus, com um aviso: “Não esperem quadros e interpretações naturalistas!”.
Antes de filmar, inclusive, houve uma decisão em duplicar Lucélia. Como a atriz conhecia a intenção de cada personagem, acabou fazendo as duas irmãs. “Isso exigiu um grande estudo de todos os movimentos de cada personagem em cena e acabou sendo um desafio divertido”, diz o diretor, que já tem prova do resultado para breve. Em maio, a produtora Elaine Soares leva o primeiro corte do filme para o Producers Network, no Marché du Film, do Festival de Cannes.

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