Thriller psicológico

A Garota no Trem: filme faz justiça ao livro

Romance A Garota no Trem ganha versão para o cinema sem perder a força que o tornou best-seller

Flávia de Gusmão
Flávia de Gusmão
Publicado em 27/10/2016 às 12:49
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Romance A Garota no Trem ganha versão para o cinema sem perder a força que o tornou best-seller - FOTO: Divulgação
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Vai ser difícil escrever sobre o filme A Garota no Trem (The Girl on the Train, EUA, 2016) sem tropeçar num spoiler, o que seria uma grande pena. A delicada arquitetura suspensa, que confere tanto ao livro homônimo – um thriller psicológico escrito pela britânica Paula Hawkings – quanto ao filme roteirizado por Cressida Wilson e dirigido por Tate Taylor a sua força cativante, não resistiria a uma descrição escancarada da sinopse. Em vez disso, é preciso discorrer “pelas beiradas”. Não por acaso, é assim que a história funciona: como uma teia de aranha, uma vez nela enredada, a vítima terá trabalho para escapar.

A versão para o cinema começou com uma responsabilidade tremenda: o romance estreou, em 2015, no topo da lista de best-sellers selecionados pelo The New York Times, culminando sua carreira com 11 milhões de cópias vendidas no mundo todo. Transportá-lo para a tela exigiria um roteirista sagaz e habilidoso, que conseguisse comprimir em duas horas o que Paula Hawkings levou 395 páginas para narrar. Era imperativo que não houvessem pontas soltas e, principalmente, para fazer honra ao gênero ao qual pertence, que a tensão interna dos personagens fosse explorada com competência. O longa foi bem-sucedido nos dois aspectos, este último, particularmente, graças ao desempenho da protagonista Emily Blunt, que teve envergadura para entrar no corpo e mente atormentados da personagem-título, Rachel Watson.

A VIDA DE RACHEL WATSON

“Eu não sou mais a garota que costumava ser”. Esta frase, dita em off, enquanto Rachel Watson é retratada sentada no vagão de um trem que a transporta diariamente no trajeto ida e volta entre o subúrbio e Manhattan aparece na abertura do filme e em seu fechamento. Embora de igual teor na junção das palavras, seu significado vai mudando, à medida que vemos a mulher percorrer um labirinto, material e imaterial, até surgir do outro lado, transformada. Não ser mais a mesma pessoa pode, ou não, ser uma coisa boa. É o que demonstram o contexto e a entonação com que a sentença é proferida. Este, aliás, é o primeiro tópico importante que o filme nos dá para levar para casa, colocar debaixo do travesseiro, e dormir sobre ele. Refletir. Mudar às vezes é a única saída.

Em pinceladas rápidas somos apresentados a Rachel Watson: uma mulher na casa dos 30 anos, recém-divorciada, mas incapaz de se conformar com a separação. Junte ao combo o fato de ela ter lidado com a frustração por não ter conseguido engravidar como desejava e de o companheiro não apenas estar casado novamente como acabado de ter um bebê com a nova esposa. Tudo isso regado a muito álcool, refúgio encontrado por Rachel para superar o sofrimento.

Somos levados pelo filme ao sabor dos sentimentos, não poucas vezes antagônicos, que a personagem desperta em nós. Às vezes empatia, noutras repulsa. Ora a percebemos como patética, ora nos relacionamos com o seu desamparo. Somos envolvidas por sua dor ou a rejeitamos como punição justa pela sua fraqueza. Não ficamos indiferentes à ela, isso é certo.

Como a estátua das Três Graças (cuja imagem aparece inclusive na reta final), vemos que a história que Rachel Watson tem a nos contar está de mãos dadas com a de duas outras mulheres na trama: Megan (Haley Bennet) e Anna (Rebecca Ferguson). É através dessa ligação involuntária que ganhamos nosso próximo troféu, para levar para casa e deixá-lo na estante da sala para que jamais nos esqueçamos da lição aprendida. A frase que Diotima teria dito a Sócrates revela bem o valor desse ensinamento: “Eros é qualquer coisa, menos terno e bonito, como muitos o imaginam”.

À medida que os véus que envolvem a trama são retirados vemos a assertiva ser exposta na prática. O desejo e a paixão, ou seja, o amor erótico é um monstro que se alimenta de cobiça, competição e egoísmo. Tendo um assassinato como catalisador da tempestade que desde o início paira sobre as “Três Graças”, percebemos no final que, embora as tormentas tenham efeitos devastadores, o que a sucede, geralmente, é a limpeza da atmosfera que, despida do peso que se acumulara, aparece transformada, apaziguada.

O corpo estendido no chão nos leva ao terceiro e grande presente ofertado pela trama: a certeza de que, embora a morte física seja a mais temida por quantos caminham sobre este planeta, existe um outro tipo de morte, em vida, e essa é a escuridão sobre aquilo que, de fato, nos rodeia. O perpetrador desse crime é o pior tipo, pois não usa revólver, ou faca ou bastão para esmagar o crânio da vítima. Usa a manipulação, talvez a arma mais eficaz à disposição da face violenta que Eros, por vezes, assume. Um grande filme.


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