CINEMA

A salada político-filosófica de O Jardim das Aflições

Documentário sobre o pensamento de Olavo de Carvalho, realizado por Josias Teófilo entra em cartaz nesta quinta-feira (29/6) no Recife

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 29/06/2017 às 5:14
Matheus Bazzo/Divulgação
Documentário sobre o pensamento de Olavo de Carvalho, realizado por Josias Teófilo entra em cartaz nesta quinta-feira (29/6) no Recife - FOTO: Matheus Bazzo/Divulgação
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Não resta dúvida de que Olavo de Carvalho se encaixa, com propriedade, naquela categoria de “meu tipo inesquecível”, um personagem self made man que criou uma mística em torno do que diz, com um toque de pedantismo. A mansão onde mora com a família, a biblioteca imponente, o visível hedonismo do modo de viver e a liberdade que tem para fumar em todos os lugares, exercem um fascínio considerável. Nos momentos mais íntimos do filme – infelizmente não são muitos –, Olavo nem de longe é um tipo que cause medo, mesmo que apareça portando um rifle de caçador de ursos.

No entanto, esta dimensão humana do velho professor de filosofia para leigos está ausente de O Jardim das Aflições. Talvez ele tenha imposto a Josias algum tipo de distância, pelo menos para preservar a natureza do filme que queriam fazer, mais em torno das ideias desenvolvidas no ensaio O Jardim das Aflições, publicado em 1995, do que em expor sua vida particular.

Ao seguir o fluxo do pensamento de Olavo a partir do livro, Josias realmente estrutura a narrativa do filme em torno do conteúdo da obra, mas sem fidelidade canina aos ensaios originais. Trata-se, mesmo, de uma releitura do livro, com temas presentes ali e outros que foram introduzidos durante o processo de gravações. Dividido em três blocos, é percebível o afã didático que Josias aplica ao pensamento de Olavo de Carvalho, a partir da filosofia grega (Epicuro, Aristóteles) e de dezenas de outros autores, com predileção para o espanhol Ortega y Gasset.

APURO VISUAL

Cansativa e de difícil apreensão – a não ser que você mantenha caneta e lápis a mão para tentar apreender o discurso do filósofo –, as sucessivas aulas de Olavo não parecem coisa de cinema. Mas Josias, muito espertamente, aqui e ali pega um atalho e ilustra o pensamento de Olavo com imagens bonitas (a fotografia de Daniel Aragão garante um certo apuro visual) e sequências tiradas de filmes clássicos.

É só Olavo dá uma respirada dos grandes temas que Josias tasca trechos de Ivan, O Terrível (Sergei Eisenstein), No Tempo da Diligências (John Ford) e Limite (Mário Pedrosa). Noutro momento mais relax, o filósofo assiste Aurora, de F.W. Murnau. Mas esses momentos, apesar de visualmente interessante, não passam de pausas para o filme respirar em meio aos seus longos trechos expositivos, em que Olavo discorre por temas caros ao seu ideário, como o poder do estado que interfere na vida pessoal do cidadão, a imortalidade da alma, o discernimento sobre o que está por trás das ideias que consideramos como pessoais e uma infinidade de outras considerações.

Os melhores momentos do filme, sem dúvida, são os trechos em que Olavo conversa com a mulher, quando ele diz que atrai muitos loucos. Cenas como essas aproximam-no de um homem, se não simples, pelo menos mais próximo do comum dos mortais. Mas o filme toma um atalho político quando Josias insere uma diatribe ideológica, que difere totalmente do corpo do filme. Olavo resolve analisar a ação do Partido dos Trabalhados, ou dos movimentos de esquerda em geral, que teriam aparelhado a cultura e os meios de comunicação. Para completar a ideia, Josias, perniciosamente, inclui cenas do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, que se tornam totalmente desnecessárias dentro da ideia geral do filme.

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