Trans

Aramis Trindade agora é Isadora

Depois de atuar em 60 longas, ator vive seu primeiro protagonista

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 06/08/2017 às 6:16
Jarrod Bryant/Divulgação
Depois de atuar em 60 longas, ator vive seu primeiro protagonista - Jarrod Bryant/Divulgação
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Com nada menos que 60 (!) longas-metragens no currículo, o ator pernambucano Aramis Trindade se preparava para viver, este ano, seu primeiro protagonista. Investigava com mais disciplina a personalidade de Joaquim Cardozo quando soube que a cinebiografia do poeta, engenheiro e dramaturgo recifense, responsável pelo cálculo do Conjunto Pampulha, em Minas; do Palácio da Alvorada, e da cúpula do Congresso Nacional e do Itamarati, em Brasília, teria que ser, mais uma vez, adiada. Aramis não ficou triste: saiu Joaquim, entrou Isadora em sua vida.

Isadora é o nome da personagem que Aramis filma atualmente, no Ceará. Cabeleireira e mulher trans, a personagem é protagonista do filme Bate Coração, sob a batuta do diretor Glauber Filho e da produtora Estação da Luz, ambos especializados em filmes populares de temática espírita como As mães de Chico Xavier. Uma comédia, o longa não deixa de ser, de alguma forma, “espírita”. No começo do filme, Isadora morre atropelada. “E ela vai aparecendo como fantasma”, adianta Aramis, durante um intervalo no set de filmagens.

Na trama, Isadora é uma mulher trans, saída do interior do Ceará para viver em Fortaleza, dona de um salão de beleza e antiga proprietária de uma boate-inferninho-gay-onde-os-homens-da-cidade-levam-seus-hormônios-pra-passear. Antes de morrer, Isadora deixa uma autorização para doação de fígado. Mas quem recebe o órgão é justamente um homem homofóbico, um profissional liberal de classe média. “Somos praticamente nós dois no filme. É uma comédia, é jocoso, fizeram testes com várias trans, mas acabou que elas não tinham carga dramática para segurar. Ainda bem: a Isadora ficou comigo”, diverte-se.

O ator tem tido o cuidado de evitar qualquer caricatura mais fácil. “Ela não se sente homem, foi uma rainha da noite, é uma mulher delicada”, diz o ator. “Está muito mais para Laerte que para Rogéria”, ri. No Recife dos anos 1990, Aramis trindade já tinha vivido uma personagem feminina, a inclassificável modelo incompreendida pelo grave de sua voz da peça Mamãe Não Pode Saber, do conterrâneo João Falcão. “Mas ela era uma mulher. Com um pequeno defeito na voz”, diz ele, lembrando da personagem grotescamente cômica.

MEMÓRIA

Para construir Isadora, Aramis recorreu à própria memória afetiva. Quando jovem, ainda no Recife de onde saiu para o Rio há 20 anos, empurrado pelo sucesso do filme O Auto da Compadecida, o ator conviveu muito com as travestis e transexuais do hoje mítico grupo Vivencial Diversiones, a trupe que politizou a “viadagem” em plena ditadura militar com suas revistas musicais improvisadas e motivou o filme Tatuagem, de Hilton Lacerda.

Seu pai, o advogado criminalista Boris Trindade e também homem de teatro, chegou a trocar várias vezes parte de seus honorários por cimento e material de construção para ajudar a manter a sede do Vivencial na periferia de Olinda.
Aramis segue rodando o País com a peça Romeu e Julieta, o cordel de Ariano Suassuna em que interpreta tanto o herói como a heroína de Shakespeare, além de investir num pequeno esquete em que faz, farsesca e mediunicamente, o próprio Ariano. Também continua participando de projetos da TV e emenda um filme atrás do outro. De uma versatilidade rara, intérprete que vai do riso sincero ao choro enterrado em poucas palavras, Aramis, contudo, sabe que as velhas regras tácitas dos estereótipos devem ter contribuído para que seu primeiro protagonista no cinema tenha demorado tanto para acontecer.

No cinema menos autoral brasileiro – e Aramis tem participado de grandes produções com aspiração a blockbuster de férias –, não ter a cara ou o corpinho do Cauã Raymond ainda interfere na escalação dos produtores. “Adoro fazer minhas participações e coadjuvantes, mas, às vezes, realmente não entendo porque ser visto sempre como um ator de segunda escalação”.

Com 36 novelas e séries de televisão no currículo de pouco mais de 15 anos de vida no Rio de Janeiro, Aramis, aliás, vai estar de novo na televisão. Na próxima semana, ele encarna um jornalista corrupto na série Os Filhos da Pátria, dirigida pelo amigo Bruno Mazzeo, uma trama sobre a corrupção no Brasil desde a colônia recém-incorporada de Portugal aos dias de operação Lava-Jato como espetáculo midiático. O protagonista é Alexandre Nero. Como coajuvantes, terá a companhia de Aramis e de Matheus Nachtergaele, Fernanda Torres e do novato Johnny Massaro.

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