CINEMA

O novo mundo gay de Corpo Elétrico

Primeiro longa de Marcelo Caetano livra o cinema brasileiro de estereótipos homossexuais

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 17/08/2017 às 5:24
Vitrine Filmes/Divulgação
Primeiro longa de Marcelo Caetano livra o cinema brasileiro de estereótipos homossexuais - FOTO: Vitrine Filmes/Divulgação
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Primeiro longa-metragem do mineiro Marcelo Caetano, 35 anos completados ontem, Corpo Elétrico, em cartaz a partir desta quinta-feira (17/8) em circuito nacional, traz para o cinema brasileiro uma lufada de ar fresco na representação de personagens homossexuais, transexuais e drag queens, entre outras minorias homoafetivas. A partir do cotidiano de um jovem gay que trabalha numa confecção em São Paulo, Marcelo aponta questões que fogem ao que se transformou em lugar comum no cinema e na TV – na mídia, de uma maneira geral. No filme, os personagens gays não são vistos como marginalizados, muitos menos alvos de violência, como já virou um costume na sua exploração imagética.

“O que a gente exclui e evita é o fatalismo. É esse desejo mórbido do espectador em ver esses corpos sendo violentados, vitimizados e agredidos. Devemos puxar esse tapete para a gente chegar a outro lugar de representação e imagem. A gente vai passar o resto da vida reproduzindo imagens que sacrificam esses corpos? Eu não vou fazer esse jogo. Às vezes, isso nem parte das bichas, mas há um desejo do status quo para que a gente reproduza isso. Eu problematizo esse lugar do artista que está trabalhando com personagens gays, negros, trans, periféricos e operários. A gente tem que construir outros referenciais e repertórios mais interessantes”, afirma o cineasta.

Elias (o paraibano Kelner Macedo) transita de cama em cama, ora com amantes antigos, ora mais novos, numa fabulação constante à la Sherazade. Para ele, o sexo não é o post coitum animal triste dos heterossexuais, mas o post coitum animal alegre dos gays. Embora tenha uma outra cena mais física, o filme é pródigo em devaneios e conversas entre os parceiros, seus desejos e ilusões. Além dessa questão existencial, Corpo Elétrico é um filme sobre a luta do trabalho contra o capital. Como devemos viver e ser felizes se o trabalho é também uma escravidão, parece perguntar Elias, um jovem paraibano que foi tentar a vida profissional em São Paulo.

Diretor de casting experiente e assistente de direção em vários filmes, Marcelo Caetano já trabalhou com inúmeros cineastas pernambucanos, entre eles Gabriel Mascaro, Hilton Lacerda (colaborador do roteiro de Corpo Elétrico), Daniel Aragão e Kleber Mendonça Filho. Foi em Aquarius, durante um teste, que ele conheceu Kelner Macedo. “Ele seria o sobrinho de Sonia Braga, mas Kleber já tinha a ideia de Pedro Queiroz fazer o personagem. Acabei conversando com Kelner de a gente manter contato. Meses meses depois ele me escreveu e trocamos figurinhas durante um ano, até chamá-lo para fazer o filme”, relembra Marcelo.

INSPIRAÇÃO

Grande parte do elenco ele foi buscar no teatro – como Lucas Andrade, do Teatro Oficina – e na noite de São Paulo, especialmente o núcleo das drag queens. Entre os destaques, estão a drag queen Márcia Pantera e a cantora trans Linn da Quebrada. “Márcia faz um tipo de performance muito popular entre os gays brasileiros, o bate-cabelo. É uma coisa meio violenta, meio física, com a peruca. A gente já trabalhou junto outras vezes e dessa vez eu queria mostrar essa coisa do corpo dela”, explica.

O título do filme é uma referência ao poema Eu Canto o Corpo Elétrico, do americano Walt Whitman. “O filme não é a tradução das imagens do poema, mas se inspira na construção de um personagem que, assim como o narrador de Whitman, caminha pelo mundo e vai observando a beleza que tem nas experiências com as pessoas, com os grupos às margens da sociedade”, diz o cineasta.

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