Aniversário

Marco do terror, 'O Bebê de Rosemary' completa 50 anos

Lançado em junho de 1968, 'O Bebê de Rosemary' trouxe uma narrativa ambígua e apreensiva, se consolidando como clássico do cinema de terror

Rostand Tiago
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Rostand Tiago
Publicado em 22/06/2018 às 9:54
Foto: Paramount Pictures/Reprodução
Lançado em junho de 1968, 'O Bebê de Rosemary' trouxe uma narrativa ambígua e apreensiva, se consolidando como clássico do cinema de terror - FOTO: Foto: Paramount Pictures/Reprodução
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Buscar hoje um bom terror dentro do circuito comercial do cinema pode render boas surpresas, a exemplos de obras como A Bruxa e Corra!, em que estilos e temáticas levam a uma excelente experiência narrativa e estética. Entretanto, há grandes chances de se deparar com uma fórmula esgotada do gênero, em que temos personagens apresentados rapidamente, antes de serem jogados em uma série de situações, muitas vezes envolvendo elementos sobrenaturais, que servem apenas de gatilhos para óbvios sustos, tudo regido por acordes sinistros igualmente óbvios.

A sensação é de que os cineastas responsáveis por essas produções enxergam no estímulo sensorial, por meio de imagens e sons, a única ferramenta para a apreensão. Construir elos entre personagens e público, dando conhecimento e empatia por aquelas vidas na tela, logo fazendo que os riscos corridos sejam mais temidos, virou algo secundário. Contudo, voltando 50 anos no tempo, lições sobre como conduzir o gênero de forma primorosa podem ser aprendidas.

Foi em junho de 1968 que O Bebê de Rosemary levou o público americano em uma tensão de duas horas no limiar entre sobrenatural místico e o natural psicológico. Eles acompanharam a história de um jovem casal, Rosemary (Mia Farrow) e Guy (John Cassavetes), que decide se mudar para um novo lar no edifício Bramford, em Nova York.  Lá, levam uma vida relativamente calma, apesar de alguns episódios estranhos, como um misterioso suicídio de uma simpática vizinha e um casal de idosos bem receptivos aos novos moradores, mesmo que vez ou outra ultrapasse um pouco os limites da boa vizinhança.

Depois de instalados, surge a esperada pelo casal gravidez de Rosemary, apesar do momento da concepção extremamente abusivo por parte do marido. Daí por diante, Rosemary começa a dar mais seriedade ao histórico místico do edifício, marcado pela presença de famosos bruxos e rituais, se preocupando com a segurança de sua criança naquele ambiente que aparenta ser menos calmo do que parece.

Boa parte de O Bebê de Rosemary pode ser facilmente enquadrado como um drama familiar sobre um casal se adaptando em um novo lar, enquanto resolvem seus conflitos profissionais e conjugais. Nada de gritarias ou acordes dissonantes, no máximo um Beethoven de trilha sonora. Entretanto, é nessa condução que se afasta das tradicionais convenções do terror (para não falar clichês), onde reside boa parte do forte efeito atingido nos momentos finais, que consolidam a obra como uma das maiores já produzidas dentro do gênero.

Dessa forma, temos uma protagonista que vai sendo construída em várias dimensões, da afetiva a religiosa, criando a empatia necessária para gerar a poderosa angústia do clímax final, impulsionada pelo brilhantismo do trabalho de Mia Farrow.

Entretanto, a direção de Roman Polanski vai povoando os momentos mais mornos com uma atmosfera que indica que algo não está certo naquele apartamento. Planos abertos e em profundidade vão apontando uma vulnerabilidade de Rosemary em sua própria residência, seu catolicismo é sutilmente atacado em diálogos com os vizinhos, sua gestação acaba lhe dando uma aparência estranhamente frágil e doentia. O ótimo ritmo muitas vezes vai sendo ditado pela curiosidade plantada após momentos enigmáticos, como o bizarro pesadelo na noite em que há a concepção do seu bebê e a revelação sobre os antepassados de seu vizinho.

A partir desse alicerce narrativo, quando já estamos conectados fortemente com a personagem principal, chegamos na reta final, em que o público lida com uma dupla paranoia: a de Rosemary se sentindo ameaçada em cada esquina ao se achar perseguida, e a do público tentando entender se o medo da mulher grávida tem motivações concretas ou é condicionado por alguma desordem psicológica. Tudo culminando na estonteante resolução da trama, que este texto não entregará para manter a experiência dos atrasados espectadores.

Segundas Opções

A produção de O Bebê de Rosemary é marcada pela presença de algumas pessoas que não eram as primeiras escolhas. A começar pela direção, inicialmente destinada para o produtor William Castle, conhecido por sua participação em “filmes B” e detentor dos direitos da adaptação do romance de Ira Levin. Castle que levou o projeto do filme para Robert Evans, uma das cabeças do estúdio Paramount na época, que ficou deslumbrado pela obra, correndo atrás para fazer daquilo um filme. Contudo, havia um porém: Evans classificou a produção como “boa demais para ser feita por Castle”.

A resolução para essa situação foi encontrada além-mar, em outro continente. O polonês Roman Polanski estava em ascensão na Europa, com a qualidade de seus filmes atravessando fronteiras e obras como A Faca na Água chamaram atenção de Evans. Polanski foi atraído pelo produtor para inicialmente realizar um filme sobre esquiadores, esporte de interesse do polonês, mas foi logo apresentado ao projeto de Rosemary, que acabou virando o primeiro filme dele em terras estadunidenses.

Polanski se mudou para os Estados Unidos, mas sua estadia foi interrompida no ano seguinte ao lançamento do filme, com o assassinato de sua esposa, a atriz Sharon Tate, pelas mãos da seita de Charles Manson. Retornou anos depois, dirigindo Chinatown, mas foi embora, dessa vez sendo ele mesmo o autor de um crime bárbaro. Hoje, ele é foragido das autoridades americanas após ser condenado por abusar de uma menor de idade nos 1970.

As outras segundas opções estavam no elenco. Polanski pensava que o papel de Rosemary deveria ser da atriz Tuesday Weld, vista por ele como “americana e pueril”, batendo com a descrição da personagem no romance. A escolha de Evans era a jovem Mia Farrow, então casada com Frank Sinatra, mas considerada muito frágil pelo polonês. Essa consideração logo mudou com uma audição com Farrow e outras atrizes. “Não tinha ninguém melhor que Mia Farrow. Robert a achava muito talentosa e ele estava certo”, afirmou o diretor em entrevista sobre os bastidores do filme em 2014.

Já John Cassavetes, que já era um renomado diretor, era a escolha de Polanski para o papel do marido de Rosemary, mesmo com o estúdio preferindo o celebrado Robert Redford para o papel. A vontade do polonês foi feita, mas, durante as gravações, atritos criativos entre ator e diretor surgiram, motivados, segundo Roman, pelo lado diretor de Cassavetes tentar ditar a condução de certas cenas, batendo de frente com as visões de quem realmente dirigia o filme.

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