CINEMA

A permanência da crítica de cinema brasileira

Dois livros se debruçam sobre a atividade dos profissionais da cultural que analisam filmes e obras audiovisuais no Brasil e em Pernambuco

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 27/10/2019 às 13:25
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Osmário Marques/Divulgação
Dois livros se debruçam sobre a atividade dos profissionais da cultural que analisam filmes e obras audiovisuais no Brasil e em Pernambuco - FOTO: Osmário Marques/Divulgação
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Desde que botou no mundo suas primeiras obras, o cinema suscitou análises sobre seu funcionamento técnico e suas características artísticas. Filósofos, linguistas, sociólogos e psicanalistas foram os primeiros estudiosos a perscrutar suas bases, à procura de fundamentos específicos. Ao lado desses especialistas, surgiram também os primeiros teóricos, que viram no cinema a conjunção de todas as artes. Paralelamente, o cinema também ganhou status de obra cultural, tornando-se objeto a ser analisado e dissecado por estetas, críticos e jornalistas, etc.

A relação, muitas vezes conturbada, entre o cinema e o jornalismo cultural, por meio de análises críticas das obras fílmicas e do seu contexto histórico, ainda precisa ser mais estudada no Brasil. Embora vários críticos de cinema tenham publicado livros com seletas de sua produção, obras mais voltadas para sua história e épocas distintas ainda estão restritas à academia. Mas duas publicações, lançadas este ano, começam a mudar esse quadro.

Os dois livros chegam para fechar uma lacuna sobre os estudos da crítica de cinema no Brasil, num momento em que a produção nacional está vivendo um dos melhores anos de sua história, com mais de uma dezena de filmes premiados em festivais internacionais como Berlim, Cannes, Locarno, Roterdã e Pyngiao, entre outros.

São eles: Trajetória da Crítica de Cinema no Brasil, organizado pelo crítico mineiro Paulo Henrique Silva, quando presidia a Abraccine – Associação de Críticos de Cinema do Brasil, e Cinema Brasileiro nos Jornais – Uma Análise da Crítica Cinematográfica na Retomada, de autoria do professor, jornalista e crítico pernambucano Luiz Joaquim, lançado pela Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco.

“De um modo geral, existe um número pequeno de livros sobre a produção reflexiva da prática da crítica de arte no Brasil. Se a gente for catar as publicações – não necessariamente acadêmicas – que estão disponíveis nas livrarias e que qualquer leitor pode entender, vai perceber que elas são muito raras, especialmente as debruçadas sobre a crítica de arte e, em particular, sobre a crítica de cinema. Nesse sentido, é extremamente salutar e feliz, não apenas que esses livros cheguem ao mercado, mas que surjam outros. A crítica de arte é uma profissão e é importante pensar sobre essa prática. Muita gente fala que não há boa criação artística se não houver uma boa crítica de arte. No cinema, é a mesma coisa”, assegura Luiz Joaquim, que assina, em parceria com o jornalista e pesquisador paranaense André Dib, atualmente radicado em João Pessoa, onde faz um mestrado, o capítulo pernambucano de Trajetória da Crítica de Cinema no Brasil.

TRAJETÓRIA DA CRÍTICA

Escrita por jornalistas e críticos associados à Abraccine, a publicação é o primeiro esforço brasileiro sobre o mapeamento da atividade da crítica de cinema no País. Praticamente, o livro conta a história do cinema brasileiro e mundial pelos olhos e palavras dos profissionais da crítica, como se diz, do Oiapoque ao Chuí. A pesquisa e os textos ainda ganham maior credibilidade por terem sido redigidos por jornalistas, críticos e acadêmicos de cada estado, que conhecem sua história particular. Naturalmente, essa história da relação entre uma atividade e uma arte, em cada um desses territórios, ainda não está esgota. Mas, sem dúvida, cada capítulo pode servir como uma bússola para estudos futuros.

Para escrever o capítulo sobre Pernambuco, Luiz Joaquim e André Dib se debruçaram sobre milhares de páginas de jornais centenários – a digitalização desses periódicos, até agora confinados em arquivos empoeirados, tem ajudado e muito a resgatar vários aspectos da história do Brasil. Ficamos sabendo que os primeiros anos do Cinematógrafo Lumière no Recife foram restritos a informes sobre as “vistas animadas”. Só em 1910, no jornal A Província, é que foi publicada a primeiro crônica sobre o hábito de assistir a filmes, alguns meses depois da inauguração dos cinemas Pathé e Royal terem sido inaugurados.

Seguindo a cronologia dos eventos e novidades da Sétima Arte, os autores contam como a atuação dos críticos – ou cronistas – da nova arte foi importante na função de informar e formar as plateias locais. Na década de 1920, quando os jovens pernambucanos, liderados por Jota Soares e Ary Severo, fizeram os filmes do que se convencionou chamar Ciclo do Recife (1923-1931), os cronistas tiveram importância capital na trajetória dos filmes, como Mário Mendonça, correspondente da revista carioca Cinearte, a principal publicação sobre cinema da época. “A cobertura dele sobre o cinema pernambucano dessa época é fundamental. Graças a ele os cariocas tomaram conhecimento e ficaram interessados em conhecer A Filha do Advogado”, conta Luiz Joaquim.
A pesquisa confirma que a crítica de cinema em Pernambucano continuou com fôlego durante várias décadas, com suma fase áurea na década de 1950, quando houve uma grande profusão de cineclubes. No entanto, a atividade sempre esteve presente nos jornais e, desde a metade da década de 1990, também no ambiente digital.

RETOMADA

O livro é resultado de uma pesquisa de mestrado em que Luiz Joaquim analisa a atividade da crítica de cinema quando o Brasil teve sua produção cinematográfica bastante reduzida, durante o governo do presidente Fernando Collor de Mello. A recuperação aconteceu ao longo de vários anos, entre 1992 e 2002, no período conhecido como Retomada. No estudo, ele percebeu que, sem filmes para escrever, os críticos apresentavam um comportamento atípico ao comentar a produção que renascia das cinzas.
Na amostragem, Luiz Joaquim escolheu os filmes Carlota Joaquina - A Princesa do Brasil (1995), de Carla Camurati; Central do Brasil (1998), de Walter Salles; e Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund (2002), comparando as críticas publicadas em jornais de Pernambuco, São Paulo e Rio Grande do Sul. Descobriu que os críticos inventaram muletas para acessar os filmes em sua totalidade.

“No primeiro filme, os críticos pareciam falar bem de Carlota Joaquina, mas só por causa do seu sucesso de público. Sobre Central do Brasil, justificavam o filme a partir da comparação com outros e da premiação em Berlim. Só com Cidade de Deus houve uma espécie de explosão. As críticas ficaram cinco vezes maiores, em comparação às escritas sobre Carlota Joaquina, e suscitaram reflexões como o que aconteceu agora com Bacurau, que furou uma bolha e fez com que todo mundo escrevesse sobre ele”, explica Luiz.

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