CINEMA

Aramis Trindade: um ator à vontade em qualquer papel

Pernambucano protagoniza um longa-metragem pela primeira vez, no filme Bate Coração, em que faz o papel de uma travesti

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 10/11/2019 às 19:54
Jarrod Bryant/Divulgação
Pernambucano protagoniza um longa-metragem pela primeira vez, no filme Bate Coração, em que faz o papel de uma travesti - FOTO: Jarrod Bryant/Divulgação
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O ator pernambucano Aramis Trindade, 54 anos, é uma das faces mais reconhecidas do teatro, da TV e do cinema brasileiro. Ele é o que se chama de ator característico: o ator coadjuvante que dá vida a personagens tão bem compostos que ninguém consegue esquecê-los. Desde 13 anos, o bicho da interpretação entrou no corpo de Aramis e nunca mais o abandonou. São inúmeras novelas, minisséries, seriados, peças de teatro, espetáculos de circo e uma conta à qual ele não titubeia: já fez 70 filmes, divididos entre 50 longas e 20 curtas-metragens.

Mas só agora, depois de todos esses anos, é que Aramis protagoniza um longa-metragem, que está em exibição nos cinemas brasileiros desde a última quinta-feira. O ator, que mora no Rio desde 2002, esta muito à vontade na produção cearense Bate Coração, um híbrido entre a comédia e o filme espírita, mais um toque de marketing em torno da causa da doação de órgãos.

Conhecido por personagens cômicos e viris – como o Visconde de Sabugosa, de O Sítio do Pica Pau Amarelo; o Cabo 70, de Auto da Compadecida; e o Tenente Lindalvo Rosas, de Baile Perfumado –, Aramis agora atende pelo nome de Isadora, uma travesti de fino trato, que é atropelada e tem o coração transplantado para o corpo de Sandro (o paulista André Bankoff), um publicitário mulherengo. Dona de um salão de beleza e muito distinta, Isadora não acredita na própria morte: teima em deixar seu espírito iluminado se manifestar pelo coração que doou a Sandro, fazendo com ele se comporte femininamente.

Com um carreira já longeva, era de esperar que Aramis já tivesse alguma experiência em se travestir no passado. Assim, esta não é a primeira vez que Aramis interpreta um personagem LGBT. Nos anos dourados do teatro recifense, ele fez uma “senhora” na peça Tal e Qual, Nada Igual, de Jomard Muniz de Brito, montada no Vivencial Diversiones, em Olinda. “Eu fazia uma velhinha, a Dona Subversão. Mas, em 1993, fiz um travesti na peça Mamãe Não Pode Saber, de João Falcão, que rodou o Santa Isabel, o Waldemar de Oliveira e o Barreto Júnior por dois anos e depois teve uma temporada no Teatro Ipanema, no Rio. Foi por isso que Daniel Dias, um dos roteiristas de Bate Coração, e também meu guia espiritual no filme, me chamou para fazer Isadora. Para quem vinha fazendo só cabra macho, foi bom fazer essa personagem. O trabalho do ator é esse: se não há composição, termina sendo só você”, garante Aramis.

HISTÓRIA FAMILIAR

A grande surpresa dele, quando leu o roteiro do filme, adaptado de duas peças de Ronaldo Ciambroni, não foi o fato de viver um travesti. O que lhe causou um grande impacto emocional foi a questão da doação de órgãos, uma experiência que ele já havia passado. “Esse filme veio para mim com uma sobrecarga, entre aspas, de significados. Há 13 anos, eu fiz uma doação de rim para o meu irmão Alberto, que é iluminador cênico e advogado. Ele fazia hemodiálise há vários meses e gente fez um transplante”, conta Aramis.

Outra historia familiar deixou o ator ainda mais sensível e com vontade fazer o filme. “Veja que curioso. A minha filha, Marina, de 13 anos, nasceu com um rim só. Ela poderia, algum dia, precisar de um rim, e eu poderia ser o doador dela, como pai. Mas o momento pediu que eu fosse doador do meu irmão e fui. Meu irmão está saudável, eu estou e minha filha também. A gente vive com um rim, está tudo tranquilo, está tudo certo”, enfatiza o ator, rindo.

Para ajudar na caracterização de Isadora, Aramis conta que se inspirou muito na cartunista Laerte, mas teve a felicidade de ter no set de filmagens, em Fortaleza, dois companheiros de trabalho, ambos LBGT, que terminaram inspirando a personagem. “Eu passei 45 anos lá, sem nem ir ao Rio. Minha esposa e minha filha é que vieram me visitar. Mas eu tive um convívio diário com Dami Cruz, a figurinista do filme, que é a própria Isadora, uma mulher calma, finíssima. Mas o lado cômico, jocoso de Isadora, eu peguei do meu maquiador, Enoque Acioli, de Brasília, que é uma grande figura. Eu acho que o ator é isso: você absorve tudo o que vê para depois traduzir no trabalho. Eu pegava um pouquinho de Dami, um pouquinho de Enoque e outro pouquinho da Laerte. No fim, o trabalho do ator é a alquimia”, teoriza Aramis.

Embora não esteja fazendo novela atualmente – ele não tem contrato com a TV Globo, trabalha por obra contratada –, Aramis tem feito minisséries e muitos filmes. Além de Bate Coração, ele também está em cartaz na comédia adolescente Ela Disse, Ele Disse, protagonizada por Maisa Silva, em que faz uma ponta.

Para o ano que vem, quatro longas longas-metragens estão no forno, entre eles a produção paulista Sem Pai Nem Mãe, de André Klotzel; Aumenta que é Rock’’Roll, de Thomas Portela, e M8 – Quando a Morte Socorre a Vida, de Jefferson De. “Todos como coadjuvante”, lembra Aramis.

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