CINEMA

A eletricidade de Azougue Nazaré chega às salas de cinema

Longa pernambucano, dirigido por Tiago Melo, que estreia em 17 cidades brasileiras, entra no time dos grandes filmes pernambucanos do ano

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 14/11/2019 às 5:00
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Inquieta Cine/Divulgação
Longa pernambucano, dirigido por Tiago Melo, que estreia em 17 cidades brasileiras, entra no time dos grandes filmes pernambucanos do ano - FOTO: Inquieta Cine/Divulgação
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Dono de uma carreira vitoriosa em mais de 50 festivais internacionais e nacionais de cinema – premiado no Festival de Roterdã (Holanda), no Bafici (Argentina), no Festival do Rio e no Festival Aruanda (Paraíba), entre outros –, o longa-metragem pernambucano Azougue Nazaré, de Tiago Melo, estreia hoje em 17 cidades do Brasil.

No Recife, entra em cartaz no Cinema da Fundação/Derby e Museu, na Kinoplex Shopping Recife e no Cinema São Luiz, onde terá uma sessão especial, às 19h, com a presença do diretor, atores, equipe técnica e membros do Maracatu Cambinda Brasileira, de Nazaré da Mata. Após a sessão, a Rua da Aurora será interditada para uma festa com a participação do Som da Rural, de Valmir do Côco (ator do filme e de Bacurau) e de vários mestres de Maracatu Rural do município.

Azougue Nazaré já tem lugar garantido entre os melhores filmes brasileiros lançados em 2019, um ano que ficará marcado na história do cinema nacional, especialmente na produção pernambucana, que contou com as estreias espetaculares de Divino Amor (Gabriel Mascaro), Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar (Marcelo Gomes) e Bacurau (Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho). Assim como esses filmes da pesada, que ainda não cessaram de reverberar conversas e debates, Azougue Nazaré também retrata com vigor, humor e olhar crítico, o emaranhado de crises que assola o Brasil.

A partir dessa pequena cidade Zona da Mata pernambucana, a ideia de Aldeia Global é mais uma vez reinventada, quando uma comunidade é solapada pelas tensões religiosas. De um lado, o avanço das igrejas evangélicas pentecostais sobre a população que segue as religiões de matriz africana. Do outro, a população que resiste para manter vivas as tradições, simbolizadas na imortalidade dos caboclos de lança, que cortam os canaviais como forças da natureza.

Quem ainda tem nas retinas as imagens televisivas das coberturas de Carnaval, sempre generosas em apontar a beleza do maracatu e o esforço das pessoas humildes em manter uma tradição secular, certamente vai ter um choque com a visão de Tiago Melo. “Quando passamos o filme fora, foi um encantamento muito grande, porque as pessoas nunca tinham ouvido falar de maracatu. Esse primeiro olhar foi impressionante. Aqui no Brasil, as pessoas conhecem, mas não profundamente. Acho que o filme propõe uma nova descoberta. Uma das coisas que o filme tem, acredito, é que tiramos a cultura popular de um pedestal, quando mostramos os artistas como gente, como eles são por trás das fantasias”, pontua Tiago.

Filho de um sertanejo do Sertão do Seridó – o pai nasceu em Picuí, na Paraíba – e neto de uma avó centenária, Adá Melo, nascida em 1917, no ano da criação do Maracatu Cambinda de Brasileira –, o cineasta, roteirista, produtor e scout location (especialista em achar os lugares onde as histórias serão filmadas), traz para o centro do filme personagens que vivem a cultura do maracatu, mas inseridos no momento atual, em que a tecnologia não pode passar despercebida, muito menos os desejos que cercam homens e mulheres.

MISTURA DE GÊNEROS

A partir de uma estrutura livre, Tiago e o roteirista Jerônimo Lemos mostram com rara vivacidade uma complexa rede de relacionamentos, tendo a vivência do maracatu como motor. Nos bares e pontos de encontros, as entoadas (a poesia dos cantos do maracatu) são travadas como batalhas, ao vivo ou por meio de mensagens de Whatsapp. O humor está sempre presente e cada um tem que usar as palavras como um às da espada. As relações amorosas também estão escancaradas, com casais à deriva e paixões fulminantes entre triângulos amorosos improváveis.

Misto de musical, melodrama e filme fantástico (há muito mistério em torno dos caboclos de lança), Azougue Nazaré transita entre gêneros com propriedade ímpar. “Esses gêneros partiram das características do maracatu, que tem uma música própria. E, claro, as histórias sobrenaturais também fazem parte da cultura de origem africana”, lembra Tiago.

A maioria dos atores, com exceção de uns poucos vindos de fora, foram recrutados no Maracatu Cambinda de Brasileira, como Valmir do Côco, Mohana Uchôa e Mestre Barachinha. Edilson Silva, agora conhecido por participações em filmes como O Nó do Diabo, O Porteiro do Dia e Bacurau, só tinha aparecido, até as filmagens de Azougue Nazaré, em Brasil S. A., de Marcelo Pedroso.
“Eu não tinha muita vivência com eles, mas antes das filmagens deixei meu Ipad com Ítalo, meu motorista, que já me acompanha há mais de 10 anos, e ele fez gravações com o pessoal do maracatu. Além disso, eles sempre tiveram contato com câmeras porque tem sempre alguém filmando. Nem olham para o equipamento”, aponta o cineasta.

Um dos núcleos mais complexos do filme traz a participação da figurinista Joana Gatis, que também atua como a mulher evangélica de Catita, a Fera de Nazaré (Valmir do Côco), que sai no Maracatu vestido de mulher. A entrada do pastor Barachinha (vivido pelo próprio mestre do maracatu), na vida do casal, rende os momentos mais impagáveis de Azougue Nazaré, um filme elétrico por natureza.

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