'Tudo está conectado': Um pouco sobre as séries 'Dark' e 'Dirk Gently'

As duas séries de sci-fi da Netflix trazem no plot questões que envolvem a viagem no tempo, sob a ótica do loop temporal.

Foto: Divulgação/Netflix
As duas séries de sci-fi da Netflix trazem no plot questões que envolvem a viagem no tempo, sob a ótica do loop temporal. - FOTO: Foto: Divulgação/Netflix

Após o estouro de Stranger Things, a Netflix parece ter mergulhado de cabeça na produção de séries com ares de ficção científica. É o caso de Dark, a primeira série alemã original do serviço de streaming, e de Dirk Gently's Holistic Detective Agency, adaptação do romance homônimo de Douglas Adams (O Guia do Mochileiro das Galáxias) que foi produzida numa parceria com a BBC America e estreou sua segunda e última temporada no último dia 5.

Enquanto Dark, como o próprio título já sugere, é uma série mais densa e sombria e que flerta com alguns aspectos sobrenaturais, chegando a ser classificada como uma obra de suspense, Dirk Gently traz o oposto, misturando comédia e sci-fi. Junção que resulta num peculiar humor em tom ácido e sarcástico. O que as duas produções têm em comum, além do fato de serem conduzidas por ambiências surreais (e dos casacos amarelos de seus protagonistas), é que abordam a temática da viagem no tempo sob a ótica do loop temporal e levantam, cada qual à sua maneira, clássicas questões existenciais que envolvem a origem e o sentido da vida.

Com relação à técnica, em ambas as tramas os mistérios são apresentados aos poucos, confluindo para o encaixe das peças de um quebra-cabeça em que "tudo está conectado". Este, inclusive, é o bordão utilizado por Dirk Gently (Samuel Barnett), o protagonista que carrega o nome da série e se deixa levar por "sinais" enviados pelo universo para resolver seus casos holísticos e pra lá de bizarros.

Ainda que apareça de forma mais latente, essa premissa da interconectividade também se faz presente na produção alemã, carregada de simbolismos sobre a relatividade do tempo e o princípio da incerteza. Não é à toa que o piloto é aberto com uma frase de Albert Einstein que diz: "A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente", em livre tradução.

A segunda temporada de Dark, já encomendada pela Netflix, promete desvendar muitos dos enigmas apresentados na primeira, uma das mais comentadas pelos críticos e entusiastas de séries desde dezembro, quando entrou no catálogo da plataforma. Já Dirk Gently, apesar de não ter sido renovada, merece destaque por ter uma fórmula totalmente diferente de tudo o que já foi visto na TV. Ainda que isso seja frustrante para os fãs, não é algo passível de uma petição, como ocorreu com o cancelamento de Sense8, por exemplo, já que a série traz um mistério diferente a cada leva de episódios, sem deixar muitas pontas soltas.

CRÍTICA DE DARK

“O desaparecimento de um menino gera medo entre os moradores de Winden, uma pequena cidade da Alemanha com uma história estranha e trágica”. É inegável que a sinopse do episódio piloto de Dark, a primeira série alemã original Netflix, tem um ar de Stranger Things. A semelhança fica ainda mais notória nos primeiros minutos da narrativa, quando somos apresentados a um complexo mistério que envolve um cenário oitentista. Só que diferentemente da ótima série dos demogorgons, a obra roteirizada pela alemã Jantje Friese e dirigida pelo suíço Baran Bo Odar é contada de forma não linear e se passa apenas parcialmente nos anos 1980.

Como o próprio nome já sugere, Dark é bem mais densa e sombria do que a sua irmã de consideração - o que não desmerece em nada Stranger Things. Afinal, a narrativa já começa trazendo a cena do suicídio de Michael Kahnwald (Sebastian Rudolph), o pai do protagonista Jonas (Louis Hofmann). A tragédia acontece em 2019, no mesmo ano em que Mikkel (Daan Lennard Liebrenz), o filho mais novo do casal Katharina (Jördis Triebel) e Ulrich Nielsen (Oliver Masucci), desaparece no entorno de uma usina nuclear - num aceno para o desastre de Chernobyl.

O sumiço do menino é o fio condutor para toda a trama, que começa a ganhar contornos quando vai expondo a relação entre quatro famílias: os Nielsen, os Kahnwald, os Tiedemann e os Doppler - com seus segredos que transpassam gerações. Apesar do plot conter um drama familiar típico de novela, repleto de traições, abusos e vidas duplas, Dark se configura melhor como uma série de suspense e ficção científica. É que a busca pelas respostas não deve partir da pergunta “onde está Mikkel?”, mas “quando”.

Isso porque Mikkel viaja para o passado, mais especificamente para o ano de 1986. Ao que tudo indica, o menino vai parar nos tempos do glitter depois que entra num buraco de minhoca, situado numa caverna na área da usina. O que deixa uma pulga atrás da orelha, considerando que ele poderia ter voltado para o futuro pelo mesmo caminho, mas isso não acontece. Sendo assim, ele se depara com os seus pais ainda adolescentes e acaba sendo adotado por uma enfermeira. O que não altera em nada no curso do seu nascimento em um dado momento, fazendo com que o garoto coexista com seu eu do passado (ou seria do futuro?).

Envolvente e intrigante, Dark consegue dar um nó nas nossas cabeças e nos fazer pausar a maratona em alguns momentos para entender o emaranhado que é lidar com vários personagens em diversos momentos de suas vidas. No caso, as suas versões de 1953, 1986 e 2019. Esse gap de 33 anos, inclusive, casa bem com os enigmas que dão escopo à relação da obra com questões filosóficas, religiosas e científicas - tendo em vista que o número não só representa a idade da morte de Cristo como também o último grau da maçonaria, a quantidade de ciclos lunares durante a gestação e das voltas sequenciais que formam o DNA, entre outras simbologias.

Diferentemente do que vemos em outra obras sci-fi, Dark mostra um tempo cíclico, em que as ações passadas, presentes e futuras dos personagens influenciam-se mutuamente em um ciclo fechado, no qual nada pode ter acontecido em primeiro, segundo ou terceiro lugar. O que dá a impressão de que eles estão presos numa espécie de encruzilhada temporal, sempre repetindo suas ações.

No fim das contas, a incapacidade dos protagonistas de escapar do loop temporal não é o ponto central da narrativa, mas como o descarrilhar de suas vidas os torna incapazes de fugir de sua própria natureza. E a fotografia carregada de tons frios e escuros não só retrata bem a sempre chuvosa cidade de Winden, como também o nebuloso limite entre o real e o surreal que rege a vida de seus habitantes.

CRÍTICA DE DIRK GENTLY

Irreverente. Nenhuma palavra define melhor a série Dirk Gently’s Holistic Detective Agency, adaptação do romance homônimo de Douglas Adams (O Guia do Mochileiro das Galáxias), que estreou sua segunda e última temporada na Netflix no último dia 5. Criada por Max Landis e produzida numa parceria entre o serviço de streaming e a BBC America, a obra de ficção científica cômica tem um formato totalmente diferente de tudo que já foi feito para a TV. E que funciona muito bem.

(Pelo menos para quem consegue absorver sua essência).

Na primeira temporada, a série aborda a temática da viagem no tempo sob a ótica de um loop temporal. O excêntrico detetive Dirk Gently (Samuel Barnett), protagonista que leva o nome da obra, vai de encontro a Todd Brotzman (Elijah Wood) na intenção que ele se torne seu assistente de investigações “holísticas”, para não dizer sobrenaturais. E Todd, apesar de relutante, acaba aceitando a proposta porque já tinha visto o seu eu do futuro (ou seria do passado?) ao lado de Dirk, numa situação que parecia ser bem mais instigante do que a vida que ele levava (e num figurino também, diga-se de passagem).

Sem amigos e sem dinheiro, pois tinha acabado de ser demitido do hotel em que trabalhava como concierge, Todd embarca numa aventura bizarra que envolve sequestro, assassinato, troca de almas, uma gangue de punks sugadores de energia, uns capangas carecas bem pitorescos, dois animais de estimação muito loucos e uma assassina psicopata que se diz holística. Esse é o tipo de coisa que só acontece em Dirk Gently. E ainda diverte horrores.

É no meio dessa confusão toda que Todd e Dirk se metem para desvendar o mistério que envolve o assassinato de Patrick Spring (Julian McMahon), um milionário que na verdade é o inventor Zacharian Webb viajando pelo tempo. O homem é o epicentro para toda essa série de bizarrices, incluindo o desaparecimento de sua própria filha, Lydia Spring (Alison Thornton). O negócio é que o estranho detetive, guiado pela premissa de que no “tudo está conectado”, que o universo está no controle, utiliza métodos nada convencionais na resolução dos crimes.

Dessa forma, todas as ações e as decisões tomadas pelos protagonistas acabam sempre os levando a um mesmo lugar, como se eles estivessem presos num ciclo fechado de repetições. O que acaba gerando certa angústia nos dois, que começam a refletir sobre questões como predestinação e livre-arbítrio. E inevitavelmente nos levando também a indagar se temos um propósito, um lugar no mundo.

SEGUNDA TEMPORADA

A segunda temporada de Dirk Gently traz um novo mistério, como a proposta da série já acusava. Um pouco mais fraca do que a primeira, a sequência mantém sua essência nonsense e desenvolve alguns personagens apresentados na predecessora, porém, explora outro conceito: o teletransporte para outra dimensão.

Aos poucos, somos introduzidos aos mistérios que rodeiam Wendimoor, um reino medieval muito mais colorido que o usual. E o cenário de floresta, repleto de fadas, bruxas e criaturas mágicas, pode muito bem puxar pela memória os tempos de programas como Xuxa no Mundo da Imaginação e Sítio do Picapau Amarelo, dando um tom nostálgico especial à produção (ponto para nós, brasileiros). A bizarrice fica por conta da família de cabelo cor-de-rosa e das “espadas-tesoura” utilizadas nas batalhas.

Em paralelo, a história se passa em Bergsberg, Montana, onde Todd e Farah (a segurança de Lydia Spring da primeira temporada, interpretada por Jade Eshete), procurados pelo FBI, estão escondidos. Sob o “incrível” disfarce de um cabelo tingido de preto, Todd tenta, a todo custo, captar algum sinal do universo que indique o paradeiro de Dirk, recém-capturado pela Black Wing, uma espécie de serviço ultrassecreto do governo.

Como em Dirk Gently “tudo está conectado”, os três se encontram e descobrem que uma casa da cidade esconde um portal para Wendimoor, que no fim das contas é tudo criação da cabeça de uma criança. Amanda Brotzman (Hannah Marks), a irmã de Todd que possui uma doença também pra lá de bizarra, acaba sendo a ponte entre os dois mundos a partir do momento que passa a ter controle sobre sua vida.

CANCELAMENTO

Tendo em vista que o público no exterior não recebeu tão bem a segunda temporada como a primeira, a série não foi renovada para a terceira temporada. Todavia, há especulações de que o real motivo para o cancelamento tenha sido causado pelas recentes acusações de assédio sexual contra o criador da série, Max Landis, que também é o roteirista de Bright, novo filme original Netflix. É uma pena. Dirk Gently tinha (tem) muito potencial, ficamos com os livros.

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