'BoJack Horseman' mantém sua complexidade narrativa em seu quinto ano

Quinta temporada de 'BoJack Horseman', disponível na Netflix, continua explorando as cicatrizes de seu protagonista sem perder o humor cortante

Foto: Netflix/Divulgação
Quinta temporada de 'BoJack Horseman', disponível na Netflix, continua explorando as cicatrizes de seu protagonista sem perder o humor cortante - FOTO: Foto: Netflix/Divulgação

Nos anos 90, ele estava em um popular seriado, conquistou fama e fez fortuna. Hoje, na casa dos 50, vive em uma mansão no alto do lugar que era conhecido com Hollywood, mas após um incidente em seu famoso letreiro, agora é referenciado como Hollywoo. Entre festas e tentativas de ser um nome relevante na indústria do entretenimento, ele lida com profundas cicatrizes em sua psique, abertas em sua infância e alargadas com o passar dos dias de sua vida. Ele é um cavalo, não apenas como um adjetivo para sua grosseria, mas literalmente um equino, antropomorfizado tanto em seu porte ereto e bípede, quanto em suas marcas psicológicas.

Já é o quinto ano que BoJack Horseman (voz de Will Arnett) tem sua história contada na popular comédia criada por Raphael Bob-Waksberg e produzida pelo serviço de streaming Netflix  Retomamos dos fatos agridoces, mas esperançosos que concluíram a quarta temporada. Entretanto, é bem claro que esse sopro, próximo de um resquício de positividade na vida do cavalo, ainda não chega perto de trazer algo que possa ser chamado de estabilidade para seus próximos dias. Os traumas que o moldam ainda estão lá, mas ele se vê em uma fase mais equilibrada em relação ao que vinha passando, participando agora de uma nova série de TV e engatando novos relacionamentos.

Animais e humanos

Para além do BoJack, a quinta temporada também não esquece daquele universo caótico em que seus personagens habitam, reflexo de uma sociedade midiática e seus lapsos de autocentrismo. Humanos e animais conscientes dão um tom fabulesco, mas nem tanto, para aquela Los Angeles, hiperbolizando figuras e situações desses tempos de cobranças políticas para celebridades e exigências em cima de produções antes mesmo de serem realizadas.

Assim surgem boa parte das piadas - sim, BoJack é uma comédia - atacando figuras já bem conhecidas no meio da cultura pop. É o que acontece com Flip McVicker (voz de Rami Malek), criado por Raphael como a personalização do diretor pretensioso, com ambições de fazer obras carregadas de conceitos complexos, mas que tem menos profundidade do que ele acha, que o faz soltar ideias como “a escuridão é uma metáfora para… a escuridão!”. Ainda nessa levada, os episódios passam por tiradas com artistas homens tentando ter protagonismo em lutas feministas e estratégias "ousadas" que o mundo corporativo tenta adotar, com seus excêntricos CEOs.

É justamente nesse equilíbrio entre a densidade dramática e o humor cortante que BoJack Horseman extrai sua qualidade narrativa, conseguindo também fazer os arcos de diferentes personagens entrarem em harmonia, mesmo que alguns tenham se afastado mais do protagonista. Todd Chavéz (voz de Aaron Paul), por exemplo, ao mesmo tempo em que traz seu universo surreal que parece operar a parte, povoado por palhaços dentistas e robôs sexuais, também leva uma pauta raramente debatida no audiovisual: os conflitos de uma pessoa assexuada, mas com necessidades afetivas.

A mistura de tons faz surgir um dos pontos mais altos da série e um dos mais brilhantes episódios da TV neste ano. Com uma encenação simples, BoJack e um caixão, é desenvolvido Free Churro (Churros Grátis), sexto episódio da temporada. Horseman faz um monólogo em um funeral durante seus 26 minutos, sintetizando economicamente todas as potências da produção durante esses cinco anos. Densidade dramática que tenta ser dissipada em camadas de jocosidade, brincadeiras com a própria linguagem cinematográfica e narrativa - "Não se pode ter finais felizes em sitcoms, porque se todos estiverem felizes, o show acaba. Mas, acima disso tudo, o show tem que continuar", diz o cavalo com um tom irreverentemente melancólico -, tudo bem carregado pelo trabalho vocal de Will Arnet.

O gostinho agridoce se repete na conclusão deste quinto ano e mais uma vez o sopro esperançoso volta a balançar a crina de BoJack. Cicatrizes continuam abertas e ainda há um longo caminho para sará-las, se é que isso vai acontecer. Não é a espera por um final feliz que move o público na jornada de autodescobrimento de Horseman e todos aqueles que o rodeiam, mas sim entender um pouco como eles fazem para sobreviver com as marcas do passado e as inseguranças do presente.

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias