Literatura

O olhar de Lygia vaga pela China

Crônicas da viagem da autora ao país em 1960 são publicadas pela primeira vez em livro

Marina Andrade
Marina Andrade
Publicado em 01/11/2011 às 7:09
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Co-mu-nis-ta. Palavra ainda hoje dita como um tapa na cara, xingamento ou acusação de loucura e promessa de interdição. Imagina em 1960, quando alguém lhe inquiria de repente, sem rodeios, “você é comunista?” O que pensar? Como responder? Lygia escutou a pergunta de Samuel Weiner, dono do jornal Última Hora. “Não, não sou comunista, sou assim subversiva, mas não comunista”, respondeu/se defendeu. Subversiva, sim, desde que estreou (oficialmente) com o romance Ciranda de pedra (1954), crônica da demolição de uma casa e de como isso desabonava emocionalmente seus moradores. Tudo o que essa senhora de pose distinta, pérolas no pescoço e invariável cigarro tem feito desde então é nos apontar desvios e falhas no “roteiro” do que entendemos por vida. Uma subversiva de marca maior!

Lygia fazia parte de uma delegação de artistas que participaria da comemoração do décimo aniversário de Mao Tsé-tung no poder chinês. Weiner, percebendo a oportunidade, sugeriu que a jovem escritora trabalhasse como correspondente para o jornal, enviando crônicas para um coluna que passaria a ser chamada de Passaporte para a China. Foram 29 textos, que ultrapassaram o relato jornalístico (é normal: a correspondente é uma subversiva) e a rigidez do programa oficial oferecido aos viajantes. Esse material é reunido agora pela primeira vez em livro: Passaporte para a China – Crônicas de viagem (Companhia das Letras, R$ 30).

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