CONTOS

Um Borges principiante, mas não menos genial

História universal da infâmia, relançado agora no Brasil, traz curtas narrativas do autor argentino

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 19/06/2012 às 6:33
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É difícil descrever Jorge Luis Borges sem se utilizar de tautologias. Dizer que Borges é Borges é uma afirmação válida mesmo para os seus textos mais curtos e jovens. História universal da infâmia, relançado em nova edição da Companhia das Letras, traz pequenas narrativas do mestre argentino, escritas entre 1933 e 1934, quando era apenas um autor em formação.

Tanto em formação que Borges, ao publicá-los, os define como “exercícios”. As histórias, na verdade, são releituras, em um estilo o mais borgiano possível, compostas por uma fina ironia. Os retratados são figuras à margem da sociedade, mas contraditórias em seus crimes e contravenções, que recebem aqui – talvez por culpa do texto de Borges – um lado humano.

É a simpatia com o destino infame do traficante de escravos americano Lazarus Morell, que vendia uma falsa liberdade para depois vender os trabalhadores a outro dono. Apesar disso, após ser preso, Morell buscou a redenção: provocar um levante de escravos, talvez para entrar na história como um abolicionista, um revolucionário. Falhou e foi morto pelos escravos, que já começavam a conhecer sua fama.

Os prólogos – um para a primeira edição, outro feito em 1954 – também contam com belos momentos da reflexão de Borges, como seu conceito de barroco. Ele diz pensar o termo não como um estilo artístico, mas sim como a etapa final de toda arte, “quando esta exibe e dilapida seus meios”. Nesse sentido, diz que História universal da infâmia é um livro humorístico justamente porque é gasto, passado. É preciso concordar que ali está um exercício de um autor jovem, mas um exercício ainda assim genial em sua capacidade de reconstrução, ironia e até mesmo autoironia.

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