RESENHA

Em novo livro, Zizek mostra importância de Hegel e Lacan

Menos que nada, lançado pela Boitempo, mostra a raiz das reflexões de aparência instantânea do esloveno

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 10/03/2013 às 14:31
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Em Menos que nada, é possível ter contato com um Zizek mais filósofo e menos ensaísta (e polemista). Ao contrário do que a pesada discussão teórica da obra pode parecer sugerir, as duas facetas de Zizek são igualmente provocativas e, na verdade, complementares: as suas defesas filosóficas são tão incisivas quanto os comentários sobre movimentos políticos como o Occupy Wall Street o a Primavera Árabe.

A obra se divide em duas grandes partes: uma sobre Hegel, outra sobre Lacan. Sua volta ao pensador alemão se dá por considerar que a apropriação que Marx faz metafísica dialética de Hegel para formar seu materialismo histórico não é suficiente para entender a crise de hoje - da economia, dos sistema político e das utopias. Hegel, em seus acertos fundamentais e limites, é reinterpretado por Zizek para a defesa de um confronto de ideias (e de classes também), que não busque uma "síntese" utópica, uma evolução, mas sim que volta ao seu ponto de partida: "Eis a fórmula em sua forma mais elementar: mover-se é o esforço de alcançar o vazio, isto é, coisas se movem, existe algo, ao invés de nada, não porque a realidade é, em excesso, mais que o nada, mas porque a realidade é menos que nada".

Menos que nada se compõe através de outro salto: traz, como se costuma na obra do esloveno, a psicanálise lacaniana para dialogar com a leitura de Hegel. A noção de ideologia, caríssima ao marxismo, é trabalhada a partir da ideia do superego, constituído pela realidade, em suas relações materiais e simbólicas. É a partir deste "grande Outro" - que só existe enquanto acreditamos nele, uma ilusão consentida -, como Zizek o chama, que os indivíduos tem seus desejos e anseios manipulados pela sociedade: em suas proibições e permissões, sistemas políticos e econômicos já estão moldando formas dos sujeitos se relacionarem uns com os outros. A aparência da liberdade, ou seja, o discurso liberal de que sim, quase tudo é permitido, para ele esconde um crescimento da autorregulação dos sujeitos - o gozo é um elemento obrigatório, a liberdade é que cria os limites de nossa atuação.

Em um livro que faz Hegel e Lacan se complementarem, Zizek mergulha na filosofia e na ciência, especialmente a física quântica, para problematizar como podemos superar as ilusões desse "grande Outro" e partir para imaginar novas formas de organizar o mundo e, consequentemente, a nossa subjetividade.

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