ENTREVISTA

A Dublin dos sujos e dos lunáticos de Daniel Pellizzari

Escritor gaúcho lança romance baseado na experiência de um mês na capital irlandesa, em trama com várias vozes narrativas

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 13/08/2013 às 6:07
Renato Parada/Divulgação
Escritor gaúcho lança romance baseado na experiência de um mês na capital irlandesa, em trama com várias vozes narrativas - FOTO: Renato Parada/Divulgação
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No romance Digam a Satã que o recado foi entendido (Companhia das Letras), o escritor gaúcho Daniel Pellizzari cria personagens excêntricos para passear por sua Dublin: um estrangeiro sem futuro, um irlandês bruto, um membro de seita bizarra, entre vários outros. Nesta entrevista, ele comenta a criação da obra, mais um fruto da coleção Amores expressos, que levou autores para países que não conheciam.

JORNAL DO COMMERCIO – A Dublin que se mostra no livro é a dos sujos e dos lunáticos. Como foi compor uma narrativa que se passa nesse universo tendo passado apenas um mês na cidade?
DANIEL PELLIZZARI –
Qualquer cidade nasce da projeção do olhar de alguém. Morei quase trinta anos em Porto Alegre, mas minha Porto Alegre é apenas minha, é delimitada pelo meu universo, uma criação minha a partir dos limites impostos por minhas afinidades e aversões. Vale o mesmo para Dublin ou qualquer outro lugar que eu tenha visitado ou usado como cenário para escrever. Cada um enxerga o que mais lhe interessa – ou, colocando de outra forma, o que consegue - numa situação qualquer, e trabalha com isso. E os personagens de Satã... são as pessoas que tendem a me interessar.

 JC – Vários momentos do livro mostram a crueldade da vida (“existir é um negócio bem opressivo”, por exemplo), mas a narrativa não é cínica ou trágica. Como foi compor esses personagens quebrados dotando-os também de uma esperança que não fosse fácil?
PELLIZZARI –
Cínico, realmente, o livro não é, assim como eu também não sou. Mas para mim Satã... é essencialmente uma tragicomédia. Nenhum dos arcos de personagem tem uma resolução que me pareça feliz, muito pelo contrário. Mesmo o personagem que encerra sua participação no livro de uma forma mais esperançosa e otimista ainda me parece ter muitos obstáculos pela frente – o que vale para todo mundo que existe e ainda não morreu, claro, mas enquanto algumas pessoas sobem morros outras precisam escalar montanhas.

JC – Os personagens são quase opostos. Algum se aproxima mais da sua forma de pensar? Foi difícil criar uma voz para cada um deles?
PELLIZZARI –
Todos os personagens têm um pouco de mim, como é inevitável, nem que seja por contraste. Mas nenhum sou eu nem reflete por inteiro minha visão de mundo. Depois que os personagens ganharam vida na minha cabeça, após um longo tempo pensando sobre eles, não foi difícil criar as vozes. Bastou ouvir.
 
JC – Dublin é, de fato, uma excelente cidade para se deixar para trás, como diz no livro? Sente falta dela?
PELLIZZARI –
Sou uma pessoa que gosta de ficar bem onde estou, num mundo essencialmente feito de pessoas indo embora. Não consigo sentir falta de Dublin porque ela continua dentro da minha cabeça.
 
Leia a entrevista completa no Jornal do Commercio desta terça (13/8)

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