Festival

Marina Lima e cabeça cheia de música

No lançamento de seu livro Maneira de ser, a cantora fala sobre João Cabral, espacialidades, limites e fluxos criativos entre música e literatura

Bruno Albertim
Bruno Albertim
Publicado em 26/08/2013 às 8:37
No lançamento de seu livro Maneira de ser, a cantora fala sobre João Cabral, espacialidades, limites e fluxos criativos entre música e literatura
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Marina Lima é uma cantora que não gosta de música. Não à maneira de João Cabral, alérgico atávico a qualquer palavra cantada. Marina não se permite é conviver com música aleatória, perfume que se espalha no ar. “Minha cabeça é cheia de música o tempo todo. Não consigo dividir a atenção com outra coisa. Música me atrapalha, se páro para ouvir, é só isso”, disse, confirmando um ouvido mais seletivo e menos praticante, no debate-encerramento do Festival A Letra e A voz, sábado, no Museu Murilo La Greca.

Antes de sessão de autógrafos do seu autobiográfico “caderno de afetos” Maneira de ser (Língua Geral), a cantora falou sobre a relação entre questões pessoais, espacialidade, criação,  limites e fluxos criativos entre música e literatura. “Eu entendo ele (Cabral), ele gosta de concisão, de silêncios. Então, eu entendo que ele não goste de canções. Talvez, se tivesse conhecido minhas canções, gostasse de música”, disse, cometendo e provocando risadas.

Relacionando geografias e criação, ela diz que ter ido morar em São Paulo lhe ajudou a entrar melhor na obra do poeta da faca só lâmina. “Tinha dificuldades com a aridez da obra de Cabral, lia sempre mais Drummond e Bandeira”.

O olhar atento por trás da molduras negras dos óculos que não escondem uma juventude além do tempo, Marina confirma a premissa de que estar é inspirar-se, motivar-se e disciplinar-se criativamente. Justificativa de sua mudança mais ou menos recente. “São Paulo me convida. No Rio, eu já estava meio parte da paisagem, passiva como o Corcovado”, diz, para concluir que, dicotomicamente, São Paulo lhe leva mais para a rua, para o público, mas também para dentro de si. “Nas cidade que tem mar, a gente fica muito passiva. Eu precisava do concreto, de mais vista para dentro”.

Como Cabral, Marina se diz interessada na lapidação para a concisão: “(A criação) não pode ser um belo vômito do que você passou”. Cronista (escreve no site As meninas), Marina deu pistas de que pretende continuar investindo em livros, mas nunca uma autobiografia. “Não consigo me ver como personagem. Minha vida é, às vezes, tão comum como a da maior parte das pessoas. E muitas bobagens, eu já esqueci”.

“Fico boba quando vejo que várias das canções dos 80 ainda interessam tanta gente”, disse, postura determinada de anti-diva, dona de uma simplicidade elegantíssima (ou de uma sofisticação absolutamente descomplicada), a “jovem senhora de 57 anos” que não perde o porte de “gata, todo dia”.

Marina deve voltar. Sua produção articula a vinda do show Maneira de ser e de um recital em que ela divide o palco com o irmão e parceiro Cícero Dias comentando, falando e cantando trechos de canções que fizeram mais sinuosa – e literária – a curva do pop brasuca desde os 80.

GALERA - Antes dela, o escritor gaúcho Daniel Galera comentou o processo de confecção de seu elogiado e premiado Barba ensopada de sangue. “Me mudei para (a cidade litorânea de) Garopaba com o intuito de fazer pesquisas, viver lá, com a mente aberta. Não necessariamente de escrever o livro”, diz ele que confirma ter investigado muito a vida local para erguer o romance de 400 páginas. Menos o provável assassinato de um velho avô num intervalo de luz numa festa que teria acontecido e cataliza a trama. “Queria que essa história permanecesse viva para mim”, diz ele, indicando a natureza sobre a qual trabalhou: “Os mitos familiares permeiam toda história”.

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