ESCRITA

Julián Herbert faz uma ode à imperfeição em seu romance

Cantiga de findar, lançado pela coleção Otra Língua, conta a história real da mãe do autor, ex-prostituta com uma leucemia grave

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 23/12/2014 às 4:07
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Por que aparar as arestas de uma obra se o que você busca é cortar o leitor de diferentes formas? Muitas vezes, a força de uma narrativa vem da quantidade de sinceridade e delírio que ela contém. Cantiga de findar (Rocco), livro do escritor mexicano Julián Herbert, é cheio de excessos e exageros, com trechos que parecem desnecessários e passagens inutilmente chulas. É, no entanto, uma ode ao poder da imperfeição, uma história realista e visceral, como falava Roberto Bolaño.

Parte da coleção Otra Língua, Cantiga de findar é um desses romances que parece ter demorado demais a chegar no Brasil. Julián, um dos grandes poetas contemporâneos do México, mergulha na própria história para fazer um relato – direto, desde o primeiro capítulo – sobre a sua mãe, internada em um hospital com uma leucemia grave. Em turnos de 36 horas, lembra o seu passado e o dela: Guadalupe foi, durante toda a infância, uma prostituta que percorreu diversas cidades do país com seus cinco filhos (de cinco maridos diferentes) para tentar sobreviver e ser feliz.

Em dado momento, o narrador da obra (que tem lá seus confessos momentos de ficção, sem deixar de ser sincera) admite que, na verdade, procura apenas “aprender a vê-la morrer”. Cantiga de findar é uma homenagem e uma vingança cheia de amor, é um trem desgovernado como costumam ser as emoções verdadeiramente fortes. Julián fala de “experiências incomunicáveis não por serem sublimes, mas cancerígenas”, manda a técnica literária à merda, rejeita tanto o cinismo quanto a beleza repleta de enfeites (“eu vejo enfeites (...) como novo-riquismo e obscenidade”). É um acerto de contas violento consigo mesmo, mas um acerto que pode também afirmar que “todo abismo possui suas canções de ninar”.

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