RESENHA

Guatemalteco Eduardo Halfon lança livro de contos

O boxeador polaco sai no Brasil pela coleção Otra Língua, da Rocco, traduzido por Lui Fagundes

Do JC Online
Do JC Online
Publicado em 06/01/2015 às 5:51
Munich Hanser/Divulgação
O boxeador polaco sai no Brasil pela coleção Otra Língua, da Rocco, traduzido por Lui Fagundes - FOTO: Munich Hanser/Divulgação
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O narrador do conto Epistrófe, um dos textos do livro O boxeador polaco (Rocco), do guatematelco Eduardo Halfon, encontra-se com um pianista que aprendeu a tocar com um russo. Ao contrário dos americanos que tocam uma melodia sempre da mesma forma, o personagem foi ensinado de forma diferente. Um dia, quando tocava uma peça de Liszt, foi interrompido pelo professor: “Está tocando a peça como ontem, rapaz (...). É que você não vê que hoje está chovendo”.

Os contos desse volume parecem contaminados de sensações vivas assim, que não parecem de jeito algum sair de um laboratório de escrita. São narrativas metaliterárias, sempre contadas do ponto de vista de um professor, mas que não se limitam a ser uma desculpa para só falar de teoria da literatura: a impressão que fica é que, assim como Roberto Bolãno, Halfon sabe extrair o que há de vivo da escrita, o que importa mais do que jogos literários.

Nas histórias que falam da descoberta de um poeta em uma aula sobre os contos modernos, de congresso sobre Mark Twain ou de um flerte com uma ex-soldado de Israel, o narrador sempre fala do seu avô e do encontro dele com um boxeador polaco que o salvou de um campo de concentração. Essa é a liga que une as tramas, que põe o autor como personagem e inventor e mostra como a ficção é tecida tanto com a realidade como com a impossibilidade da realidade.

Halfon ainda reproduz no livro um discurso seu em um congresso. Ali, dá uma bela definição da força dos seus contos, ou melhor, da força da literatura quando é bem feita e recheada de sensações sadicamente incompletas, como são as da vida: “Ao escrever sabemos que há algo muito importante a dizer com respeito à realidade, e que temos esse algo ao alcance, ali, muito perto, na ponta da língua, e que não devemos esquecer. Mas sempre, sem dúvida, esquecemos”.

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