CRÍTICA

A arte de ruminar palavras de Helder Herik

Escritor garanhuense alimenta-se das confusões e imaginações típicas de crianças em "Rinoceronte dromedário"

Diogo Guedes
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Diogo Guedes
Publicado em 08/02/2015 às 17:39
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Escritor garanhuense alimenta-se das confusões e imaginações típicas de crianças em "Rinoceronte dromedário" - FOTO: NE10
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Em uma das cenas do seriado Mad men, um dos belos dramas televisivos da atualidade, o misterioso personagem do publicitário Don Draper se recusa a falar do seu passado. “Eu não posso falar da minha infância, isso estragaria a primeira metade do meu romance”, brinca. Mesmo na cultura pop, os traumas ou a idealização da meninice são um dos temas literários mais frequentes e fascinantes da literatura mundial – são a parte mais famosa de Em busca do tempo perdido, clássico de Marcel Proust, por exemplo; a dor crua do romance Infância, de Graciliano Ramos; e a nostalgia irreverente ou metafísica de Manuel Bandeira e Clarice Lispector. Ou seja, para muitos, a infância é realmente uma boa parte das suas obras, sejam ela memórias, poemas ou ficções.

O escritor e professor garanhuense Helder Herik não olha para trás na sua infância, como muitos desses autores. Não é uma avaliação, uma rememoração ou uma saudade que movem a sua poesia. No livro Rinoceronte dromedário (Cepe Editora), um dos vencedores do Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014, Helder não volta à infância porque, em sua poesia, ele nunca a deixou: recria fatos e imagens, alimenta-se das confusões e imaginações típicas de crianças.

Neologismos, frases intuitivas e inocências aparecem ao longo dos versos, que inventam sentidos para o mundo que cerca todos nós. Formigas são palavras, sombras são irmãos gêmeos ao avesso, mentiras são massas de modelar do cérebro. A beleza da ingenuidade é o que sustenta a obra, uma espécie de dicionário poético, que continua – de forma mais concisa – a temática do livro anterior de Helder, A invenção dos avós.

É impossível não ter a sensação de que se está lendo uma poesia que tem parentesco com Manoel de Barros e suas poesias de inutensílios, miudezas e naturezas. Helder acha seus próprios caminhos, também – afirma que “Fraqueza era timidez do corpo”, entre outros achados. Helder alia aqui a sua sensibilidade com uma busca pelas palavras exatas para se expressar – e, aqui, exato não quer dizer científico, mas sim aquilo que procura a perfeição poética.

O total da obra, no entanto, é mais singela do que impressionante, mais bonita do que capaz de deslumbrar o leitor. É um volume que segue com passos firmes por uma paisagem que, no fim, começa a parecer repetitiva – onde se via pureza, o leitor pode começar a notar idealização, e onde havia surpresa, vê expostas vez ou outra as fiações das máquinas de Helder. Nada que estrague a leitura ou diminua os feitos da obra. Rinoceronte dromedário reitera que o autor garanhuense é um dos nomes de destaque da nossa poesia atual, cada vez mais maduro e formatando sua própria voz.

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