MODERNO

Os 70 anos da morte do singular Mário de Andrade

Autor de romances, contos, poemas e ensaios, os escritor era um homem múltiplo dentro do modernismo brasileiro

Do JC Online
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Publicado em 25/02/2015 às 9:19
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Mesmo entre as várias mentes inquietas do modernismo brasileiro, a figura do escritor paulista Mário de Andrade teve uma atuação singular. Na prosa, na poesia e nas pesquisas sobre cultura popular, ele teve uma participação importante na reinvenção, no registro e na interpretação das tradições nacionais. Com esse volume de interesses, era quase um homem renascentista em meio ao turbilhão de vanguardas e experimentos da Semana de Arte Moderna, de 1922.

Há 70 anos, o criador de Macunaíma, Amar, verbo intransitivo e Pauliceia desvairada morria em São Paulo. A data marca a contagem regressiva para a entrada da obra do escritor em domínio público, a partir de janeiro do ano que vem. Agora, para lembrar a efeméride, a editora Novo Fronteira prepara três lançamentos: uma versão em quadrinhos de Macunaíma - que já virou o clássico filme com Grande Otelo em 1969 -, o romance inédito Café e uma coletânea contos e crônicas. As obras saem a tempo da homenagem ao autor na Festa Literária de Parati (Flip), em julho deste ano. Além disso, o pesquisador Eduardo Jardim publica agora a biografia Mário de Andrade: eu sou trezentos - vida e obra (Edições de Janeiro), que mostra a trajetória do modernista.

Para Lourival Holanda, professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE, Mário de Andrade segue como um nome fundamental para se entender a literatura e a cultura do País. "Ele é um emblema de fato da modernidade na literatura", aponta o pesquisador. O autor paulista tem pelo menos dois momentos: o de ruptura, ligado à semana de 1922, que tem muita coisa que é "empolgação ou besteira", e o mais maduro. "Ele se torna depois uma figura crítica, um escritor, antropólogo e pesquisador. De certa forma, essa capacidade de usar de vários instrumentos teóricos o faz uma figura ainda muito contemporânea", analisa Lourival. Não por acaso, até crítica de cinema ele exerceu, assinando com o pseudônimo R. de M. na revista Klaxon.

Apesar de estar inscrito no cânone nacional, o romance Macuinaíma talvez seja mais reverenciado do que lido hoje em dia. Na obra, publicada em 1928, Mário de Andrade recria no personagem-título, "preto retinto e filho do medo da noite", uma síntese da cultura nacional, com humor, colagens e folclore. "É uma narrativa que tem uma visão irônica da cultura brasileira. É um pouco restrita à sua época, mas traz em si um gesto que é fundamental para se entender o Brasil ainda hoje", explica Lourival.

Ao mesmo tempo, se a prosa e a pesquisa das raízes brasileiras são importantes, a poesia do autor paulista não ocupa lugar de destaque se comparada a de colegas modernistas como Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade. "Se você olhar bem, quase ninguém sabe um verso ou um trecho de um poema dele, ao contrário do que acontece com esses outros", comenta o pesquisador.

Os estudos de Mário de Andrade são um registro valioso da cultura brasileira no início do século 19. Ele percorreu o Brasil - inclusive o Recife - vendo manifestações populares e se alimentou várias vezes disso para compor ensaios e até obras ficcionais. "Assim como João Guimarães Rosa é incontornável para quem quer entender o modo de criar moderno, Mário de Andrade é incontornável para quem quer entender como a cultura era pensada", destaca.

Sua abordagem da cultura brasileira, no entanto, era bastante singular. Não tinha o olhar cosmopolita de Sérgio Buarque de Holanda e nem a obsessão regional de Gilberto Freyre. "São dois pensamentos fundamentais, Freyre olha a nossa história por um prisma das misturas e origens, enquanto Mário de Andrade se preocupa em ver as singularidades da nossa cultura", opina Lourival.

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