PROJETO GRÁFICO

Elaine Ramos fala sobre design editorial e fim da Cosac Naify

A desginer, uma das mais reconhecidas no mercado editorial, passa pelo Recife nesta semana

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 27/04/2016 às 5:37
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A desginer, uma das mais reconhecidas no mercado editorial, passa pelo Recife nesta semana - FOTO: Divulgação
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O lamento pelo fim da Cosac Naify no final de 2015 não foi um mero luto de redes sociais, imediatos e instantâneos. Ao perder a editora capitaneada por Charles Cosac, os leitores sentiam que dariam adeus a algumas singularidades dela; uma das quais seria o catálogo, com volumes sobre arte e um acervo de grandes autores de teoria e literatura. Uma coleção brilhante, mas que, logo após o anúncio do fim, já começou a ser disputada por outras casas editoriais, provando que elas manteriam os avanços da Cosac.

Muito além do catálogo, outro traço da editora foi essencial para a comoção: a qualidade gráfica de praticamente todas as suas obras. Dos catálogos de arte até as versões experimentais de obras literárias, como Bartleby, o Escrivão e Zazie no Metrô, a Cosac elevou o padrão do design editorial brasileiro – e fez isso sem se ater a tiragens minúsculas e artesanais. A principal responsável por essa inventividade e beleza, a arquiteta e designer Elaine Ramos, está no Recife esta semana, fazendo uma palestra e um workshop de três dias sobre design editorial.

Elaine foi parte da Cosac desde 2004 até o fechamento da editora. Ali, como diretora de arte, deu aos livros que iam sendo publicados uma imagem única, experimental, ousada e, ao mesmo tempo, com um profundo respeito ao que a obra se propunha a ser. É sobre essa relação de respeito e invenção diante do texto que ela fala aqui no Recife.

“O processo de criação do designer, em geral, se dá muito pelas balizas do projeto. Ele tem as condicionantes econômicas, o conteúdo. É isso o chão em que você pisa para pensar um projeto. Você pega ideias do ar: elas vêm dos condicionantes, do texto”, comenta Elaine, que por três anos se dedicou à pesquisa que resultou na obra Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil, feita com Chico Homem de Melo. “Você tem que atender ao objetivo da obra. Um livro como o Bartleby, o Escrivão, que precisa ser descosturado para ser lido, certamente poderia ser irritante para quem tem um fim prático.”

Para ela, não é apuro gráfico que tornou a Cosac um projeto inviável financeiramente – a editora sobrevivia do mecenato do seu dono, Charles Cosac, que decidiu fechá-la por questões econômicas e, principalmente, por falta de vontade de seguir com o projeto. “Não é o cuidado que a tornou inviável. O próprio DNA do mecenato a tornou problemática. Isso se espalhava para todas as decisões administrativas. Havia obras excessivas, como a maioria dos catálogos de arte, que só poderiam existir com patrocínio mesmo. Mas outros livros, que prezavam pela originalidade das edições e pela qualidade gráfica, são sustentáveis”, analisa.

A convicção na importância dessas obras é tanta que Elaine pretende abrir uma editora, a Ubu. O mercado para livros assim não é o de grandes tiragens, com 15 mil exemplares, mas o de cerca de 3 mil, bem além dos pequenos empreendimentos quase artesanais, que produzem belos títulos, mas em formatos que inviabilizam uma circulação maior. “A Ubu deve começar em setembro ou outubro deste ano. Vamos ter alguns dos livros lançados pela Cosac e coisas novas, nas áreas de ensaios contemporâneos, literatura ilustrada, antropologia, design e obras infanto-juvenis”, adianta.

De certa forma, Elaine fica feliz por saber que a influência da Cosac pode ser vista no mercado atual. “Eu gosto de achar que tivemos esse efeito. Não tenho um mapa na cabeça de pequenas editoras, conheço algumas pequenas, como a Carambaia. Acho que a produção se pulverizou tanto que é difícil fazer um mapeamento editorial. Além disso, editoras como a Companhia das Letras já têm um trabalho bonito em grandes tiragens”, opina.

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