PROSA

Homero Fonseca lança a novela À Espera do Tio Alois

Na obra, editada pela Mariposa Cartonera, o escritor aborda o medo da perda da memória e o dilema da morte

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 12/12/2016 às 19:36
Ana Fonseca/Divulgação
Na obra, editada pela Mariposa Cartonera, o escritor aborda o medo da perda da memória e o dilema da morte - FOTO: Ana Fonseca/Divulgação
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Morrer e continuar vivendo. Em alguma medida, o medo de permanecer enquanto a memória e a consciência vão embora pode ser mais assustador que o próprio fim de tudo. O personagem Hermano Fontes vive com esse temor: o de que, em uma esquina qualquer, o esquecimento pode dominar sua mente e ele terá “o olhar vidrado” dos mortos.

A novela À Espera do Tio Alois, do escritor pernambucano Homero Fonseca, autor de Roliúde e Tapacurá: Viagem ao Planeta dos Boatos, traz o relato de um homem que teme ser vítima da doença de Alzheimer. Em uma carta e nos seus diários, ele tenta anotar os próprios esquecimentos para saber se está piorando, enquanto reflete sobre a memória e a morte. Editada pela Mariposa Cartonera, a obra é lançada terça (13/12), a partir das 19h, no Café São Braz do Paço Alfândega.

O nome personagem, Hermano Fontes, tem as mesmas iniciais que autor; os dois ainda são da mesma faixa etária. Alguns lapsos de memória que Homero passou a ter até foram a inspiração para a narrativa, mas as coincidências param por aí: À Espera do Tio Alois não é biográfico e, muito menos, autoficção. “Rejeito o rótulo por uma questão de princípio. Acho que autoficção é uma forma de autores se colocarem numa posição de importância, de imaginarem que suas meras atribulações são temas literários”, explica. 

“Toda literatura é feita de memória e imaginação, de experiência e invenção. Neste livro, há um ponto de partida pessoal, da minha experiência: eu estou com 68 e há algum tempo venho tendo lapsos de memória, normais, pois os neurônios vão se desgastando. Isso me levou a ter uma certa preocupação. Há uns dois anos, comecei a ler e pesquisar sobre memória e Alzheimer”, continua o escritor.

Homero soube depois que não tinha nada com que se preocupar, mas ficou interessado no tema. Há uma carga de tragédia na obra – “Ultimamente, os lapsos são mais frequentes; são derrotas”, diz uma das anotações de Hermano –, mas o personagem também se permite ironias. “Não queria que ficasse algo chato. Era uma preocupação pessoal. Acho o tema dramático, mas cabe alguma leveza e autoironia nele. Além isso, escrever como anotações foi um exercício de concisão, também: narrar essa história em formato discursivo tomaria mais tempo, teria muita encheção de linguiça, a estrutura poderia ficar enfadonha”, comenta o autor.

No título, há o embate de temores que domina a obra. Um é o do próprio Alzheimer, descrito como “tio Alois”, em referência ao nome do psiquiatra que descobriu a doença. O outro é a espera: a tensão de imaginar que o esquecimento completo pode chegar a qualquer momento. De certa forma, como pensa Hermano, “quem perdeu as funções cognitivas, entre as quais a memória é das mais importantes, perdeu a alma”. “Fui buscar essa imagem, a da perda da alma, em Santo Agostinho. Para mim, alma é sinônimo de consciência. Depois que o livro estava pronto, conversando com um amigo sobre o Alzheimer, ele falou de que viu um conhecido que tinha a doença. Quando os dois se encontraram, os olhos dele brilharam, mas logo voltaram a ficar vazios. Meu amigo disse que foi ‘como se a alma dele se retirasse’. Fiquei brabo, gostaria de ter usado essa imagem no livro”, diz Homero.

ODISSEIA

O autor está escrevendo um novo romance, que nasceu de uma provocação do poeta Delmo Montenegro. Ele perguntou por que Homero não fazia, tal qual seu xará grego, uma Odisseia nordestina. “Pensei: a Odisseia é algo muito grande para mim. Além disso, o nordestino é uma regionalização que pode terminar diminuindo a obra. Por fim, por azar, meu nome é o mesmo que o do autor da Ilíada e da Odisseia, apesar dos meus pais serem iletrados e do interior. Eu estaria lascado”, aponta. “Mas um dia estava pesquisado e achei um episódio que se passou em Tracunhaém no século 16: o rapto da bela filha de um cacique pelas mãos do filho de um senhor de engenho – chamam o caso de uma ‘Troia nordestina’. Fui pegando outros casos, do Brasil todo, e fazendo meio que uma brincadeira séria”. A história será centrada em um personagem, Jaraguá, um herói esperto como Ulisses. “Tanto que a epígrafe é uma citação de Ariano Suassuna: a astúcia é a coragem do pobre”.l 

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