ANÁLISE

O filho que o 'bruxo de Cosme Velho' adotou

Machado de Assis encontrou em Mário de Alencar, filho de José de Alencar, um alicerce

Antonio Gonçalves Filho da Estadão Conteúdo
Antonio Gonçalves Filho da Estadão Conteúdo
Publicado em 12/12/2016 às 9:19
Foto: Reprodução
Machado de Assis encontrou em Mário de Alencar, filho de José de Alencar, um alicerce - FOTO: Foto: Reprodução
Leitura:

Muito mais que um exercício de imaginação, colocar-se no lugar do outro é um pouco sentir a vertigem do semelhante - e, no caso de Machado de Assis, essa "vertigem" se traduz nas "crises nervosas" que se tornaram frequentes após a morte de sua mulher Carolina, com quem foi casado durante 35 anos. Recém-viúvo e sem filhos, Machado de Assis encontra na figura de Mário de Alencar mais que um interlocutor. Encontra um filho, cuja candidatura à Academia Brasileira de Letras patrocina.

Mário de Alencar veio a ocupar, em 1905, a vaga aberta pela morte de José do Patrocínio. Os jornais, especialmente O País, desaprovaram a escolha. O Malho publicou uma caricatura do escritor vestido como um escolar e uma cartilha sob o braço esquerdo. Machado, reflete Silviano Santiago, talvez tenha incentivado o filho espiritual a se candidatar à vaga da Academia para que "Mário se redimisse da culpa que sofria por ser autor medíocre e não estar à altura do pai, José de Alencar".

Mário, embora visitasse regularmente o mentor - quase todos os dias, conforme deixou registrado -, invejava Machado, ainda segundo o romance de Santiago. A doença que mantinha pai e filho espiritual unidos não oferecia, segundo o autor, a possibilidade da "simetria encontrada na bela amizade" entre o escritor mais velho e o mais moço. Machado era introvertido, Mário, extrovertido. Eram tipos antagônicos unidos na doença - eles se tornam semelhantes por causa dela, defende Santiago, definindo-os como "dois Prometeus melancólicos".

A análise dessa relação dramática e da compreensão do significado real da doença de ambos passa, no epílogo do romance, pela leitura dos Evangelhos. Santiago retrata Machado a consultar a versão de Marcos da história do epilético endemoninhado. Tenta imaginar o choque que o bruxo de Cosme Velho teve com o estilo brutal do evangelista. Machado nem ousaria descrever da mesma forma a cena de um espírito se apoderando de um pobre garoto epilético, espumando e rangendo os dentes diante de Jesus. Mas Santiago, que já se colocou no lugar de Graciliano Ramos no diário ficcional Em Liberdade, é capaz de se apresentar como alter ego de Machado e escrever um romance em que dá prioridade à interpretação.

NATUREZA DO ROMANCE

Por vezes ensaístico, Machado é um romance transgressor. O autor de Memorial de Aires é apresentado como um naturalista que se aproveita dos clássicos para antecipar a linguagem dos surrealistas, em busca da "beleza convulsiva" numa cidade que se moderniza e empurra o "bruxo de Cosme Velho" para o abismo, ‘um self made man’ vindo do morro do Livramento que superou a pobreza, mas não os preconceitos de uma capital que copiava Paris.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Últimas notícias