PROSA

Centenário de Hermilo Borba Filho celebrado com relançamentos

O escritor e dramaturgo pernambuco tem duas obras relançadas: 'Os Ambulantes de Deus' e 'Contos'

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 08/07/2017 às 7:47
Divulgação
O escritor e dramaturgo pernambuco tem duas obras relançadas: 'Os Ambulantes de Deus' e 'Contos' - FOTO: Divulgação
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A vida, conta o escritor Hermilo Borba Filho no seu romance Margem das Lembranças, de 1966, é se jogar “numa longa viagem do útero à morte: de um negro para outro, de um vermelho para um vermelho, de um branco para um mais que branco”. Um dos principais dramaturgos e escritores não só de Pernambuco, mas do Brasil, o autor deixou o seu primeiro escuro que habitou há exatos 100 anos. A sua longa viagem não foi pouco luminosa: deixou uma importante marca no pensamento sobre a cultura popular, na paixão e na criação através da palavra e no teatro moderno do país, por exemplo.

As celebrações oficiais do centenário começam nesta sábado, 8 de julho, mostrando a multiplicidade da criação de Hermilo. No teatro que leva o seu nome, ele vai ser homenageado a partir das 18h com uma apresentação do Cavalo Marinho Boi Pintado do Mestre Grimário. Logo depois, às 18h30, a Cepe Editora vai relançar dois livros do escritor, a novela Os Ambulantes de Deus e um volume que traz três livros de Hermilo, intitulado Contos. A noite é encerrada com uma leitura dramatizada de Hilda Torres e Adriano Cabral e com o espetáculo Mucurana, o Peixe.

Nascido em Palmares em 1917, Hermilo começou a sua formação intelectual na boa biblioteca da cidade. Logo, foi convidado por um professor a participar de encenações teatrais – foi na Sociedade de Cultura de Palmares que começou a dirigir peças. No Recife, cursou a Faculdade de Direito, quando travou amizade com Ariano Suassuna, apenas um dos seus amigos na intelectualidade da época. Hermilo construiu, ao longo da vida, projetos com Valdemar de Oliveira, travou ricos diálogos com Osman Lins, em suma, foi uma figura essencial dos debates literários e teatrais no Brasil.

Apesar de reconhecido como um dos grandes dramaturgos do Brasil, contava que se descobriu um escritor quando começou a escrever romances: suas peças eram carregadas, antes de tudo, também pelo amor pela palavra.

Se a sua obra teatral ainda não recebe a atenção que merece, o caso é ainda mais duro com a sua produção em prosa, quase esquecida hoje. Hermilo teve uma grande produção de narrativas, especialmente a partir de década de 1970: escreveu sete romances, duas novelas e os três livros de contos agora estão reunidos. Talvez o mais aclamado desses trabalhos seja os quatro volumes da tetralogia Um Cavalheiro da Segunda Decadência, uma espécie de autoficção muito antes do termo virar moda (e obsessão) no Brasil.

“Teço, neste papel, um passado real, às vezes, e, outras, puramente imaginado na esperança de que no fim Deus confunda o que vivi e o que inventei e me dê um saldo favorável para uma modesta pensão no Purgatório”, escreveu o narrador de Margem das Lembranças. Gostava também de citar, sobre essa relação entre vida e ficção na sua obra, uma frase de James Joyce: “Não sei escrever sem ferir ninguém”. E complementava: “Se não me poupo, como vou poupar os outros?”.

OS AMBULANTES DE DEUS

Além dessa ficção autobiográfica, Hermilo se propôs também a criar narrativas com ares míticos (muitas vezes recriados a partir do popular, mas sem imobilizá-lo) na sua prosa, sem nunca deixar a vida ou a realidade urgente de lado. Para o escritor Fernando Monteiro, que assina o prefácio dessa nova edição de Os Ambulantes de Deus, é possível definir Hermilo como “o inconformista”. “Foi (e continua sendo) um exemplo de engajamento não desvinculado da ligação com o transcendente, por paradoxal que isso pareça, à primeira vista”, explica.

O próprio Hermilo se via assim. “Pertenço a uma cultura de resistência e justamente porque a liberdade e a dignidade do homem estão em crise é que utilizo a única arma que tenho – minha ficção, para combater a intolerância sob qualquer aspecto em que se apresente”, afirmava.

Na novela, Hermilo conta uma travessia de cinco anos – em que, “saindo amanhã bem cedinho talvez chegue amanhã” – de Cipoal em uma jangada com cinco passageiros: a prostituta Dulce-Mil-Homens, o poeta cordelista Cachimbinho-de-Coco, o pedinte Nô-dos-Cegos, o bicheiro Amigo-Urso e o motorista de caminhão Recombelo. Todos em direção a um destino que desconhecem, em uma narrativa em que ecoam a cultura popular, as histórias bíblicas, A Divina Comédia e as histórias dentro de histórias das Mil e uma Noites.

Aliás, no volume Contos, explica o professor de Letras da UFPE Anco Márcio, prefaciador da obra, é também possível identificar a teia contínua da narrativas construídas por Sherazade. A obra editada pela Cepe Editora reúne os livros O General Está Pintando (1973), Sete Dias a Cavalo (1975) e As Meninas do Sobrado (1976). Publicados separadamente, os títulos funcionam como uma obra coerente justamente porque representam o que Hermilo pensava como “arte popular” – segundo Anco, “aquela que transborda o ‘sentido vital do conceito popular’, pois ‘deve surgir como consequência do meio e converter-se e um instrumento poético’”.

Nos contos de Hermilo é possível ver como o autor trabalha a delicada dialética entre “o legado estético-literário das vanguardas do século 20, as tipologias e os modos da literatura, e o Romanceiro Popular do Nordeste”. Para Anco, no entanto, uma dos dados importantes dessas narrativas de Hermilo é a capacidade de construir uma temporalidade mítica mais do que histórica. “Assim, em um processo alquímico, complexo e delicado, as novelas hermilianas vão cumprindo a sua missão: falar das coisas que aconteceram, mas não como elas aconteceram (História), e, sim, como elas poderiam ter acontecido (ficção). E nesse poderiam ter acontecido, ela, a literatura hermiliana, declina um tempo não linear, não diacrônico, e pode falar e cantar as alegrias, dores e misérias da humanidade mostrando que elas não são alegrias, dores e misérias constituidoras apenas do nosso tempo, mas expressões do fardo que nos condena desde o dia em que fomos expulsos do Éden”, escreve o crítico literário. Afinal, eis o poder da prosa de Hermilo: ela faz como poucos “o sagrado frequentar o mundano e, por sua vez, o mundano se inscrever no sagrado”.

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