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Orlando Oliveira: o Super Odin dos quadrinhos pernambucanos

Dono da Banca Guararapes incentiva quadrinistas e promove feira no centro do Recife

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 17/03/2018 às 4:04
Leo Motta/JCImagem
Dono da Banca Guararapes incentiva quadrinistas e promove feira no centro do Recife - FOTO: Leo Motta/JCImagem
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O recifense Orlando Oliveira, 61 anos, tem mais de um 1,90 de altura e barba e cabelos entre o loiro e o branco. Por causa de sua estampa e do amor pelas histórias em quadrinhos, ele é carinhosamente chamado de Super Odin – uma referência ao Rei de Asgard, o pai de Thor, o Deus do Trovão. Orlando é dono da Banca Guararapes, um promontório cultural encravado no centro do Recife, entre o prédio dos Correios e o Edifício Sertã, onde ficava o Cinema Trianon. Ele e o irmão Zeca, já aposentado e que tinha uma banca em frente à sua, a Globo, herdaram o negócio do pai, o jornalista José do Patrocínio, que conhecia a história do Recife como ninguém.

“A vida inteira fui dono de banca de revistas. Já disse à minha mulher que, quando morrer, pode me cremar e jogar as cinzas na Avenida Guararapes. A gente está resistindo bravamente à crise dos impressos, à crise econômica e à crise de distribuição. A crise de distribuição ainda não está resolvida. Muitos títulos não chegam aqui. A gente espera que as distribuidoras sintam essa agitação dos quadrinhos no Recife. Eu tenho clientes que compram de R$ 1 mil a R$ 1,2 mil de quadrinhos por mês. Nós temos colecionadores no Recife com 10 mil quadrinhos. Outros que compram quadrinhos há 40 anos”, revela Orlando, que também coleciona gibis e tem ajudado no crescimento da produção local, vendendo revistas e promovendo a Feira Asgardiana, que chega à quinta edição neste sábado (17/3).

Orlando relembra que a primeira feira, em agosto de 2016, reuniu entre 12 e 15 pessoas, mas “a quarta já foi uma multidão. Foi quando notamos que a coisa estava evoluindo bem. Desta vez me organizei melhor, com a ajuda da minha mulher e dos meus filhos e fomos atrás da prefeitura, que está apoiando a feira, assim como a Universidade Maurício de Nassau”, explica.
Para esta nova feira, que começa às 10h, a marginal direita da Guararapes será interditada para a prefeitura armar uma espécie de acampamento – às 13h, o sol na Avenida Guararapes costuma estar em brasa –, que irá abrigar cerca de 80 mesas: 60 vão formar um Artist’s Alley e outras 20 serão para quem levar sobras de coleção para vender ou trocar. “Além de apostar no comércio, também vamos ter muito papo sobre quadrinhos, com a presença de César Vasconcelos, um especialista que já participou das quatro CCXP (Comic Con Experience) que aconteceram em São Paulo. Na última edição, fomos juntos. A gente tá preparando uma palestra para ser dada na rua”, adianta Orlando, que acredita que esta pode ser uma boa maneira de revalorizar o centro do Recife, “um dos mais bonitos do Brasil, recortado por dois rios”.

Ao contrário do que está acontecendo com outros tipos de publicações, as histórias em quadrinhos estão vivendo uma lua de mel no Recife. Orlando tem sentido isso pelo grande número de clientes que vão até a banca para comprar e conversar sobre o tema. “De uns tempos para cá a venda de quadrinhos aumentou bastante. Ao contrário dos jornais, ninguém gosta de quadrinhos online. Os colecionadores gostam de pegar, manusear, guardar e ler as revistas impressas. Quando os colecionadores chegam para pegar os quadrinhos, a primeira coisa que fazem é abrir as embalagens e dá uma cheiradinha, porque gostam do cheiro da tinta”, comenta.

COLECIONADOR

O fato de ser colecionador também é um diferencial no trabalho de Orlando. Se fosse um vendedor qualquer, como tantos outros, certamente que a Banca Guararapes não teria se tornado num ponto de encontro. O amor extremo às revistas também é uma característica dele, assim como de muitos dos seus clientes. “Eu tenho muito ciúme dos meus quadrinhos. Gosto muito de quadrinhos em preto e branco, talvez por ser mais velho do que a média do pessoal. Mas não desprezo os coloridos. Gosto muito da arte de Batman. Eu tenho algumas revistas com mais de 40 anos nas minhas mãos e não vendo por dinheiro algum. Na minha casa, quando as visitas se aproximam da estante de quadrinhos, a primeira coisa que digo é proibido pegar. Pode olhar; mas pegar, não”, diz, sério.

Ao mesmo tempo em que traz os lançamentos nacionais para o Recife, dos quadrinhos mais fáceis aos mais difíceis, Orlando nunca deixou de olhar para a produção local. Durante muito tempo, a Banca Guararapes foi o único lugar no Recife onde o fã encontrava a produção quadrinística da cena. “Não basta divulgar a produção que chega de fora, mas dar importância também ao que se faz aqui. Tem uma turma excelente. E qualquer que seja a obra eu faço questão de trazer para cá”, afirma Orlando, entre as pilhas de revistas de quadrinhos – e também de outros tipos de publicações – que lotam o interior da banca.

“Numa época em que os quadrinhos eram marginalizados e ditos como ‘coisa pra criança’, Odin batalhou bravamente em defesa dessa arte. Para mim, o melhor lugar para se comprar gibi ainda é e continuará sendo numa banca de revistas. E a Banca Guararapes é mais que uma banca: é um verdadeiro ícone na cena dos quadrinhos pernambucanos. Pra quem ama quadrinhos, pra quem faz ou quer fazer quadrinhos, Pernambuco tem uma dívida de carinho por Orlando Odin”, arremata o quadrinista, cineasta e ilustrador Luciano Bresdem, que tem feito uma série de desenhos sobre o Recife, especialmente de quando foi criança, na década de 1980.

“O mercado de quadrinhos nunca esteve tão propício, nunca produziu tanto. Temos, por exemplo, Luciano Félix, um desenhista sensacional. Thony Sillas, o desenhista da Marvel, que tem produções locais como A Noiva. Felipe Moura, outro desenhista muito bom. Outro ilustrador, que é fera também, é Levy Andrade. Jonathan Marques é aquele que faz imagem se mover. Marcos Santana é um desenhista excepcional, ele fez um desenho de David Lloyd, o autor de V de Vingança, que esteve no Recife. No desenho, quando o cara tirava o escafandro, quem estava por trás era ele”, relembra.

Orlando aponta o lançamento do Renascimento DC como um dos pontos altos dos quadrinhos nos últimos anos. “Ao zerar o universo e recomeçar tudo novamente, as revistas da DC aumentaram em muito as vendas. O Universo Renascimento DC deu certo, inclusive lançando por aqui coisas que não estavam programadas. As revistas de Superman, Batman e Mulher Maravilha, entre outros, estão bombando”, comenta. Para incrementar a venda e o relacionamento com os clientes, Orlando acabou aceitando a dica de um amigo e abriu alguns grupos no WhatsApp. “Foi uma coisa que super deu certo, tanto que hoje tenho quatro grupos: dois de reservas, um de papo e um de negócios, com cerca de 800 pessoas participando”.

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